quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Equipe internacional de cientistas decifra o cromossomo X


16/03/2005 - da France Presse

Uma equipe internacional de geneticistas acaba de fazer a primeira análise completa do cromossomo X, a misteriosa espiral de DNA que determina o gênero humano e cuja disfunção é apontada como causa de cerca de dez doenças hereditárias.

Este trabalho marco, que será publicado na edição desta quinta-feira no semanário científico britânico "Nature", sugere que homens e mulheres devem o seu sexo parcialmente a cromossomos que evoluíram de um organismo assexuado, menos de 300 milhões de anos atrás.

O estudo também abre novas portas para o diagnóstico e entendimento de alguns tipos de retardamento mental --e uma futura possibilidade de cura--, do câncer testicular, anomalias no sistema imunológico e muitas outras doenças hereditárias.

"O cromossomo X humano tem uma biologia única que se formou durante sua evolução ... (e) ocupa um lugar único na história da medicina genética", destacou o artigo.

Em cada conjunto de seus 23 pares de cromossomos, os seres humanos têm um par de cromossomos de gênero, cada um herdado de um dos pais biológicos. As mulheres têm dois cromossomos X, chamados assim por causa de seu formato, e os homens, um X e um Y.

Ao longo de milênios, o cromossomo Y foi progressivamente se degenerando até o formato de um pequeno tronco, um processo que dá sustentação à inquietante teoria de que os homens eventualmente podem vir a se extinguir na evolução.

O cromossomo Y tem hoje menos de cem genes, porções do DNA que contêm as proteínas, moléculas que compõem e mantêm os tecidos humanos.

Neste recente estudo, a equipe de cientistas chefiada pelo Instituto Wellcome Trust Sanger em Cambridge, Inglaterra, seqüenciou e analisou mais de 99% do cromossomo X, identificando nele a impressionante marca de 1.098 genes, cerca de 4% do total de todo o genoma.

Tentando compreender esta notável diferença entre os cromossomos X e Y, a equipe concluiu que os dois cromossomas evoluíram de origens modestas como um par "ordinário" de cromossomos idênticos em um organismo assexuado.

Mudanças em um gene de um destes pares originaram a cascata molecular que levou ao desenvolvimento do homem e, na seqüência, à degeneração do cromossomo Y em seu estado atual.

O cromossomo X, ao contrário, se manteve preservado com o passar dos anos. A teoria é que ele serve para manter um quadro mais complexo de genes de forma a compensar a retração do cromossomo Y.

Segundo o estudo, das 3.199 doenças hereditárias identificadas, 307 podem ser atribuídas a mutações ou falhas no cromossomo X, que interrompem a vital produção de proteínas.

Muitas destas doenças, entre elas a hemofilia e a distrofia muscular Duchenne (DMD), já foram associadas ao cromossoma X porque ocorrem apenas entre os homens. A razão para isto é que os homens têm apenas uma cópia do cromossomo X, enquanto as mulheres têm uma cópia de backup, estando portanto menos expostas a estas mutações em particular.

Mas, lembrou o estudo, também há outras doenças raras que são comuns aos dois sexos e podem ser atribuídas ao cromossomo X.

Graças ao seqüenciamento, 43 novos genes foram apontados como os culpados por doenças como cegueira, palato fissurado, câncer testicular, uma rara anomalia do sistema imunológico chamada doença linfoproliferativa associada ao cromossomo X e um tipo de retardamento mental conhecido como NS-LXMR.

"Ao estudarmos estes genes, podemos obter uma compreensão notável dos processos que levam a estas doenças", disse Mark Ross, chefe do projeto no Instituto Wellcome Trust Sanger.

"A partir do nosso estudo de um gene relacionado com a doença associada ao cromossomo X, um teste genético foi desenvolvimento e foi descoberto um novo caminho que controla o funcionamento do sistema imunológico", acrescentou.

Outros membros da equipe encarregada do estudo com o cromossomo X incluiu a Faculdade de Medicina Baylor College de Houston, Texas; o Instituto Max Planck de Genética Molecular e o Instituto de Biotecnologia Molecular, ambos na Alemanha; e o Centro de Seqüenciamento do Genoma da Universidade de Washington em St. Louis, Missouri (Estados Unidos).

O estudo mostrou que cerca de um terço de todo o cromossomo X é absorvido por uma seqüência repetida de DNA.

A teoria é que este é um mecanismo para "silenciar" genes, algo que é especialmente importante para as mulheres, pois garante que genes desnecessários de sua cópia de backup do cromossomo X permaneçam desativados.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13126.shtml

**Devaneios não científicos do autor deste blog: Se o cromossomo y vem se degenerando, e isso leva a crer na extinção do gênero masculino, homens transexuais, são uma forma da natureza criar alternativas para a preservação? Como perpetuar? Com células tronco? E se o cromossomo já estiver desativado, ou em vias de, em mulheres transexuais?**

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Travestis e transexuais são foco de seminário em Brasília


02/02/2010 - Por Hélio Filho

Evento em Brasília vai discutir as principais demandas do segmento trans brasileiro Brasília vai receber na próxima quinta-feira, 4, o 2º Seminário da Visibilidade de Travestis e Transexuais do Distrito Federal, promovido pelo Grupo Elos. O objetivo é discutir as demandas da população trans e formular um documento que exponha quais são as principais dificuldades enfrentadas por ela.

O encontro começa às 18h, no Auditório da Central Única dos Trabalhadores (CUT), no Conic, e vai listar e debater demandas em áreas como Educação, Saúde, Segurança Pública e do Trabalho, temas já discutidos na primeira edição do evento. O encontro vai resultar em um documento final enumerando as necessidades trans.

O evento é aberto e gratuito e as inscrições podem ser feitas pelo site do Grupo Elos (http://www.eloslgbt.com.br/)


Márcia Arán fala sobre a identidade sexual no Café Filosófico CPFL em São Paulo


Normalmente, homem e mulher são gêneros muito simples de serem definidos biologicamente. Porém, no mundo contemporâneo há uma gama maior de sexualidade, com a qual muitos ainda têm dificuldade de lidar, segundo Márcia Arán.

A psicóloga deu prosseguimento ao módulo "Subjetivações Contemporâneas" de Joel Birman abordando o tema "Novas formas de sexualidade" nesta quarta-feira, 22 de julho de 2009, em São Paulo.

O assunto da palestra provocou um intenso debate não só no público do Tom Jazz, mas também em quem acompanhou a transmissão ao vivo pelo site.

Na internet, algums participantes do chat falaram sobre o preconceito de ser homossexual. O debate foi colocado em pauta durante a apresentação da psicóloga, que respondeu algumas dúvidas de quem participou da transmissão online.

O chat ainda serviu como um espaço de debate e troca de experiências de pessoas que ainda sofrem com o medo de aceitação pela sociedade e principalmente pela família.

Segue o link para o vídeo da palestra: http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-novas-formas-de-sexualidade-marcia-aran

Fonte: http://www.cpflcultura.com.br/post/marcia-aran-fala-sobre-identidade-sexual-no-cafe-filosofico-cpfl-em-sao-paulo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Porque bons exemplos não tem gênero III

A História de Lynn

Copyright @ 2000-2004,
Lynn Conway.

Lynn Conway é uma conhecida pioneira na área do desenho de chips eletrônicos. As inovações que Lynn desenvolveu durante os anos setentas no Centro de Pesquisas de Palo Alto da Xerox nos Estados Unidos (sigla em inglês: P.A.R.C.) causaram um forte impacto mundial nessa área da alta tecnologia. Inúmeras companhias desse segmento, mesmo com diferentes métodos de computação, se baseiam no trabalho dela.

Milhares de desenhistas de chips aprenderam esta profissão com a ajuda da obra “Introdução aos Sistemas VLSI” da qual Lynn foi co-autora juntamente com o professor Carver Mead do Instituto Tecnológico da Califórnia (Cal Tech). Milhares de outros desenhistas de chips desenvolveram seus primeiros projetos VLSI ao utilizar o sistema de protótipos denominado MOSIS que também se baseia diretamente no trabalho de Lynn no P.A.R.C. De fato, uma grande parte da evolução do desenho dos chips de silício, nos últimos tempos, é resultado do trabalho de Lynn Conway.

Lynn ganhou muitos prêmios como reconhecimento por seu trabalho e ela foi eleita Membro da Academia Nacional de Engenharia dos Estados Unidos, o que representa o máximo em reconhecimento profissional a que pode chegar um engenheiro nos Estados Unidos.

O que ninguém sabia até poucos anos atrás é que Lynn também realizou outra pesquisa de grande importância nos anos sessentas quando trabalhava na I.B.M. Recém formada, ela inventou um método importante para gerenciar, fora de ordem, múltiplas instruções por ciclo de máquina nos chamados supercomputadores. A isto Lynn deu o nome de “Dynamic Instruction Scheduling (DIS),” ou seja, “Gerenciamento Dinâmico de Rotinas." Depois de resolver este problema fundamental da arquitetura dos computadores no ano de 1965 é que foi possível a criação do primeiro computador verdadeiramente "superescalar,” de cuja invenção, na I.B.M., ela participou.

Na primeira parte da década de 90, os chips evoluiram a ponto de conter transistores suficientes para que computadores superescalares coubessem em tais chips. De repente, a invenção da D.I.S., de autoria de Lynn, começou a ser utilizada em todos os microcomputadores pessoais da nova geração, aumentando a capacidade deles muito mais do que teria sido possível de qualquer outra maneira. Assim é que o trabalho de Lynn teve um forte impacto na moderna revolução tecnológica dos sistemas de informática.

A maioria dos engenheiros de informática pensava que a D.I.S. era um trabalho de décadas. Não tinham a menor idéia que tinha sido inventada de uma vez só no ano de 1965. Lynn sempre sentiu muita angústia sabendo que esta sua maravilhosa descoberta, que vinha sendo utilizada pelo mundo afora, além de ser descrita e comentada em todos os livros especializados em arquitetura da informática, nunca lhe fora atribuida.

Como é que ocorreu esta omissão? Por quê Lynn guardou silêncio durante mais de três décadas sobre sua invenção na I.B.M. ?

A resposta é que mulheres como Lynn têm vivido, sobretudo no passado, submersas num holocausto de estigmatização, perseguição e violência. Simplesmente ela não podia revelar sua verdadeira identidade sem correr grandes riscos físicos e enormes prejuízos tanto na carreira profissional quanto na vida pessoal.

A realidade é que Lynn nasceu menino e foi criado como tal. Isto foi um erro terrível e trágico porque ela tinha o sexo psíquico e a identidade de gênero femininos. Porém, nos anos quarenta e cinqüenta não havia quase nenhum conhecimento sobre as disfunções do gênero. Assim, Lynn foi obrigada a crescer como um menino. Embora sofresse bastante, ela suportava isso tanto quanto possível. Inclusive na época em que trabalhava na IBM, vivia como um homem e tinha um nome masculino.

Depois de muitos anos tentando conseguir ajuda, Lynn finalmente conheceu o médico pioneiro Dr. Harry Benjamin, logo depois que ele publicou sua magistral obra “O Fenômeno Transexual.” Foi o primeiro livro que analisou a verdadeira natureza da aflição de configuração errada de gênero de que padecia Lynn, e além disso oferecia soluções médicas ainda que paliativas.

Com a ajuda do Dr. Benjamin, Lynn iniciou um tratamento médico em 1967. Ela foi uma das primeiras mulheres transexuais que recebeu terapia de substituição hormonal e reajuste cirúrgico para efetuar uma transformação completa do corpo de sexo masculino em feminino. Infelizmente, pouco antes de se submeter à cirurgia de redesignação sexual, ela foi demitida pela IBM por causa da sua transexualidade e perdeu toda a ligação com o importante trabalho que tinha desenvolvido lá.

Esta foi uma situação sem precedentes na IBM. O fato de um dos empregados querer “mudar de sexo” deixou apavorada a direção da empresa. Nessa época, a maioria das pessoas transexuais que procurava ajuda pertencia ao mundo dos espetáculos ou trabalhava em prostituição. Nessa época as únicas pessoas que ousavam mudar de gênero eram aquelas que podiam "passar" completamente como mulheres, que estavam sem esperança, e que não tinham nada a perder. Ao saber o que Lynn pretendia fazer, a Direção da I.B.M. resolveu demiti-la num misto de ódio e hostilidade. Pode-se afirmar com quase total certeza que foi o lendário chefão,Thomas J. Watson, Jr., que tomou esta decisão.

Embora Lynn contasse com um pequeno grau de apoio de alguns amigos e familiares, depois da sua demissão da IBM, todo o mundo perdeu a confiança no que ela pretendia fazer e ela perdeu todo o apoio que tinha. Assim, teve que viajar sozinha ao exterior para se submeter à cirurgia. Não só tinha perdido uma carreira e reputação profissionais assim como perdeu a família, os parentes, e todos os seus amigos e colegas de profissão. Olhava com medo para um futuro cheio de incertezas, sem ninguém no mundo com quem pudesse contar exceto sua equipe médica.

Depois de voltar do exterior, Lynn trocou de nome e concluiu a sua ressocialização de gênero. Iniciou de novo sua carreira, da estaca zero, do nível de programadora novata sem experiência profissional. No entanto, Lynn é um ser de muita coragem e conseguiu se adaptar perfeitamente ao seu novo gênero apesar de todas as previsões calamitosas que fizeram os executivos da IBM assim como todos os amigos e familiares que a tinham abandonado. Enfrentou sozinha sua nova vida, fazendo novas amizades e lutando pelo sucesso.

Surpreendentemente, Lynn veio a ser muito feliz e tão cheia de vida e esperanças que brilhou na sua carreira. Depois de passar por uma série de companhias, conseguiu uma colocação como arquiteta de computadores na empresa Memorex, em 1971. Dois anos depois foi recrutada pela Xerox para trabalhar no novo e excitante Centro de Pesquisa de Palo Alto (P.A.R.C.) justamente quando este estava sendo implantado.

Em 1978, apenas dez anos depois da sua transição de gênero, Lynn já era conhecida internacionalmente pelas inovações VLSI que tinha feito. Nesse ano escreveu um inovador livro didático sobre o assunto, e se preparava para começar a ensinar no primeiro curso sobre os sistemas VLSI no Instituto Tecnológico de Massachusetts (o M.I.T.).

Dois anos mais tarde, universidades no mundo inteiro adotaram este livro em cursos semelhantes, e o Departamento da Defesa Americano inaugurou um grande programa de apoio a pesquisas para ampliar seu trabalho. Fundaram-se dezenas de companhias privadas que desenvolviam esta tecnologia com fins lucrativos. E tudo isso aconteceu sem que ninguém descobrisse nada sobre seu passado. Descoberta, ela nunca poderia ter sobrevivido nem feito o que fez.

Durante os anos oitentas e noventas Lynn seguiu sua carreira de uma maneira cada vez mais diversa e influente, e desfrutou de uma vida repleta de aventura, satisfação e felicidade. Atualmente, Lynn é Professora Emérita de Engenharia Elétrica e Ciências Informáticas na Universidade de Michigan em Ann Arbor, onde também ocupa há anos o cargo de Decana Associada da Faculdade de Engenharia. Mora numa grande fazenda com o seu marido a quem conheceu há muitos anos.

No entanto, durante todos os trinta e um anos seguintes à sua transição de gênero, Lynn guardou um sigilo rigoroso sobre o seu passado, e dele só falou a alguns poucos amigos íntimos. Lynn conhecia histórias de outras mulheres transexuais que tinham sido objeto de ostracismo, abuso, assédio, violência, estupro e até assassinato e que suicidaram ao serem descobertas e perseguidas por indivíduos brutais e cheios de ódio.

Durante muito tempo Lynn viveu sob uma constante sensação de ameaça, risco e perigo, e temia que o seu passado fosse descoberto e que conseqüentemente perdesse os seus direitos legais e trabalhistas e que fosse motivo de afastamento de seus relacionamentos pessoais e profissionais.

Finalmente, em 1999, os historiadores da informática se debruçaram sobre o trabalho inicial que Lynn tinha feito na IBM tantos anos antes e o ligaram a ela, e seu passado foi revelado a seus colegas de profissão. No início Lynn sentiu um medo compreensível, mas aos poucos começou a pensar que talvez os tempos tivessem mudado o suficiente e que não lhe causaria nenhum problema abrir mão do seu sigilo. Certo é, que não havia nada do que se envergonhar na sua vida. Muito pelo contrário, podia se orgulhar dos seus sucessos pessoais e profissionais.

Porém, Lynn ainda ficava triste por causa do tratamento desumano que era dado a mulheres transexuais por parte de seus pais, parentes, companheiros de trabalho, pelo sistema judicial e pela sociedade em geral. O que é extremamente trágico é a rejeição completa pelas suas famílias pela qual passam muitos adolescentes transexuais. Tal rejeição, freqüentemente experimentada justamente nos primeiros momentos em que procuram ajuda, pode condená-los a longos anos de marginalidade.

Lynn começou a pensar se, de algum jeito, a sua história podia ajudar a outros. Sabia que a opinião pública, e os problemas que causa, muitas vezes são gerados pela mídia. As imagens de transexuais mostradas pelos meios de comunicação muitas vezes enfocam só na fase de transição, chamando a atenção para detalhes chocantes, mórbidos e às vezes embaraçosos do processo de mudar de sexo. A princípio, essas histórias podem parecer tolerantes, mas com freqüência terminam em passar uma imagem triste e patética. Leitores ou espectadores terminam por se compadecer das “coitadas” e em pensar “tomara que isso nunca aconteça a alguém da minha família!"

O que poucas vezes se transmite é uma sensação de alívio que experimenta a transexual ao se livrar do corpo masculino, e a felicidade que encontra logo após, como mulher.A gente nunca se dá conta que vivem na sociedade dezenas de milhares de mulheres pós-operadas bem sucedidas na vida e que são plenamente aceitas como mulheres. O público simplesmente não é informado sobre estas histórias de final feliz.

Por que é assim? Isto acontece porque todas estas mulheres vivem em sigilo, da mesma maneira que fez Lynn, temendo as conseqüências caso seus passados sejam revelados. Entretanto, dezenas de milhares de jovens transexuais pré-operadas vivem presas ao temor e à dúvida sobre os seus futuros. São muitas vezes rejeitadas pelas suas famílias e perdem os seus empregos, exatamente como ocorreu com a Lynn, na hora de identificar seu problema e de procurar soluções médicas para ele.

Lynn é a primeira mulher transexual de sucesso que emergiu de um prolongado sigilo para a luz do dia para contar sua história, o que deve trazer esperança a jovens transexuais. Pode ser que ajude fazendo com que os pais concebam um futuro feliz para um filho possivelmente transexual, especialmente se eles se tornam dispostos a apoiá-lo no processo de transformar o seu corpo e começar a ser mulher mais cedo na vida. Além disso, A História de Lynn pretende fazer com que empregadores pensem duas vezes antes de demitir uma pessoa talentosa por causa da sua transexualidade.

Vai chegar um dia em que uma transformação de sexo não será mais vista como um acontecimento triste, trágico, embaraçoso e penoso, mas propriamente como um milagre de ressuscitação para infelizes que nascem com o gênero trocado. Lynn espera poder ver a chegada desse dia.

Traduzido para o português por Sonia John

5-4-04

Homepage de Lynn: http://www.lynnconway.com/

Fonte: http://ai.eecs.umich.edu/people/conway/LynnsStory-Portuguese.html

CUBA: Início das cirurgias de redesignação de sexo e declaração da SOCUMES


Domingo, 31 Janeiro 2010

Transfofa para PortugalGay.pt Notícias

Mariela Castro Espín é a directora do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex) de Cuba, onde dirige as políticas para proteger os direitos das lésbicas, homossexuais e transexuais.

A resistência que enfrenta é enorme, e apesar de ser a filha do presidente Raúl Castro, não consegue que o Parlamento discuta uma proposta de Código de Família que inclua os direitos destas pessoas.

No entanto, o trabalho do Cenesex tem sido recompensado. No ano passado, o Ministério da Saúde aprovou as cirurgias de redesignação de sexo para transexuais e já foram realizados 14 procedimentos cirúrgicos com pleno sucesso.

os processos passam automaticamente por uma coordenação entre o Cenesex e o Ministério da Justiça que culmina com a entrega imediata de toda a documentação com a nova identidade. A lei identifica o sexo dos indivíduos na forma de seus genitais, mesmo por terem sido operados. Existem casos de cubanos que têm feito cirurgias fora do país e de regresso também lhes são atribuídas mudanças de documentação.

Do V Congresso Cubano de Educação, Orientação e Terapia Sexual, que terminou recentemente (22 de Janeiro de 2010) em Havana, veio o apoio a uma posição clara para o tratamento de transexuais em Cuba: Na sequência da proposta da Comissão Nacional de Atendimento Integral a Pessoas Transexuais, do Centro Nacional de Educação Sexual, da secção de Diversidade Sexual da Sociedade Cubana Multidisciplinar de Estudos da Sexualidade (SOCUMES) propôs na sua Assembléia Geral de Associados em 18 de Janeiro de 2010 em Havana, a adopção da seguinte Declaração:

DECLARAÇÃO DA SOCUMES SOBRE A DESPATOLOGIZAÇÃO DA TRANSEXUALIDADE

Recordando a inclusão actual da transexualidade como doença mental no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders IV (DSM-IV), publicado pela Associação Psiquiátrica Americana (APA) e na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde (OMS);

Lembrando também que o padrão de assistência adoptado em Cuba por parte da Comissão Nacional de Atenção Integral das pessoas transexuais baseiam-se nas publicações do World Professional Association for Transgender Health (WPATH), que também incluem a classificação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais e da Classificação Internacional de Doenças E-10;

Considerando que a Associação Psiquiátrica Americana em 2012 publicará a quinta versão do mesmo manual e que o chefe e outros especialistas do grupo de trabalho encarregado da sua revisão propôs recentemente a não remoção desta categoria, bem como a aplicação a meninas e meninos de terapias reparativas psicológicas para adaptação ao sexo atribuído à nascença;

Levando em conta a preocupação expressa pelos indivíduos e grupos em defesa dos direitos humanos a nível internacional sobre esta questão;

Considerando que todas as pessoas transgéneras - incluindo os transexuais, travestis e intersexuais - podem ser vulneráveis à marginalização, à discriminação e ao estigma, com base na abordagem binária e socialmente normativa de reconhecer apenas duas identidades de género: masculino e feminino;

Considerando também que as classificações acima referidas perpetuam e aprofundam a discriminação contra esses grupos sociais, causando danos físicos e psicológicos irreversíveis que podem levar ao suicídio;

Considerando também que a transexualidade e outras expressões transgéneras não são uma opção por um estilo de vida e que as modificações no organismo dessas pessoas não têm intenções cosméticas, antes respondem a um direito e uma necessidade interior de viver com a identidade de género a que a pessoa se sente pertencer;

Recordando os Princípios de Yogyakarta sobre a aplicação do direito internacional dos direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de género, especialmente o Princípio 18 sobre a "Protecção Contra Abusos Médicos", que entre outros aspectos, responsabiliza os Estados e governos a garantirem "que nenhum tratamento ou aconselhamento médico ou de natureza psicológica considere, explícita ou implicitamente, a orientação sexual e a identidade de género como transtornos de saúde que devem ser tratados, curados ou removidos;

Considerando que o direito à saúde pública e ao acesso universal e gratuito aos seus serviços são garantidos pelo governo cubano para todos e todas, mas que ainda se necessita de leis adicionais para proteger plenamente os direitos das pessoas transgénero;

Recordando a Resolução 126 do Ministério de Saúde Pública, de 4 de junho de 2008, que regulamenta os procedimentos envolvidos na assistência à saúde para transexuais;

Reconhecendo que o atendimento multidisciplinar fornecido pela Comissão Nacional de Atenção Integral das pessoas transexuais, desde a sua criação em 1979 até agora, levou a uma acentuada melhoria na qualidade de vida das pessoas atendidas e dos seus famíliares.

MANIFESTAMOS o nosso apoio para a retirada da transexualidade da classificação internacional de doenças mentais, especialmente na atualização a ser publicado em 2012 no DSM-V e CID-10.

REJEITAMOS a aplicação de terapias psicológicas corretivas a pessoas transgéneras, visando inverter a sua identidade de género e as cirurgias de redesignação sexual para menores de 18 anos.

REAFIRMAMOS que a transexualidade e outras expressões transgéneras são expressões da diversidade sexual, às quais se devem garantir todos os tratamentos psicológicos, médicos e cirúrgicos necessários para aliviar as alterações da saúde mental destes indivíduos, resultantes do estigma e discriminação .

REAFIRMAMOS também que a implementação destes procedimentos respeitam os direitos sexuais de cada pessoa e são consistentes com os princípios bioéticos da autonomia, não maleficência e da justiça.

REAFIRMAMOS também que a atenção às pessoas transexuais devem ser abrangentes, para assegurar o reconhecimento e o respeito dos direitos individuais, muito mais do que apenas cuidados médicos e psicológicos.

REITERAMOS a necessidade de se considerarem as legislações necessárias para assegurar o reconhecimento destes direitos, especialmente a proposta de Decreto sobre "Identidade de Género", que inclua a mudança de identidade, independentemente da cirurgia de redesignação de sexo.

APELAMOS para o aprofundamento e implementação de estratégias educativas sobre orientação sexual e identidade de género em todos os níveis e para a população em geral, como previsto no Programa Nacional de Educação Sexual.

REAFIRMAMOS que a necessidade de atenção às pessoas transexuais seja incluída de forma abrangente às políticas sociais do Estado e do Governo de Cuba, em correspondência com a Declaração da Assembléia Geral das Nações Unidas, que condena a violação dos direitos humanos pela orientação sexual e identidade de género, apoiada por Cuba a 18 de Dezembro de 2008.

Havana, Janeiro 22, 2010

Fonte: http://portugalgay.pt/news/Y310110D/cuba:_inicio_das_cirurgias_de_redesignacao_de_sexo_e_declaracao_da_socumes

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

CHILE: Organização ajuda transexual a alterar nome sem cirurgia genital


Domingo, 31 Janeiro 2010

Transfofa para PortugalGay.pt Notícias

Após oito meses de andamento, um homem transexual chileno de 35 anos, ganhou na justiça o direito de alterar nome e sexo nos seus documentos sem ter que se submeter a uma cirurgia de redesignação de sexo (CRS) como parte do seu processo de mudança de sexo.

Agora, A. O. B. P., que nasceu num corpo biologicamente feminino, será oficialmente tratado pelo seu nome masculino, com o qual é conhecido desde a adolescência. A decisão foi divulgada pelo Grupo de Ayuda a Hombres Transexuales (GAHT), uma organização sem fins lucrativos que oferece orientação para os homens transexuais de forma gratuita, enquanto procura divulgar e visibilizar esta realidade, informando e educando a sociedade.

A decisão favorável demonstra que o pedido de rectificação inicial, planeado e escrito pelo GAHTt é totalmente eficaz. Devido às precárias condições económicas da maioria das pessoas transexuais, o GAHT realizou uma intensa pesquisa sobre a jurisprudência internacional, a fim de facilitar a vida das pessoas trans, que não têm dinheiro para pagar a um advogado.

No Chile, as leis de Registo Civil autorizam a rectificação do nome na certidão de nascimento, mas não fazem nenhuma referência ao género ou ao sexo da pessoa, deixando a sentença ao juiz encarregue do caso.

Lukas Berredo, coordenador do GAHT disse que "o nosso país deve ter uma legislação específica que dê cobertura e segurança jurídica às pessoas transexuais, alterando a atribuição do sexo que está em conflito com a sua identidade, sem necessidade de cirurgia genital". O documento está no site www.gaht.clà disposição da comunidade.

A Transexualidade nas Crianças, in O Publico

Crianças e adolescentes com perturbação de identidade de género

À espera do corpo verdadeiro

27.01.2010 Por Andrea Cunha Freitas

Eles querem usar saias e cabelos compridos. Elas escolhem cortar os cabelos e vestir só calças. Não dizem que querem ser de um sexo diferente. Insistem que são de um sexo diferente. São crianças com uma perturbação de identidade de género. Casos raros de quem diz estar preso num corpo errado desde sempre. O que fazer com estas crianças? E quando?

Nem sempre é possível identificar e diagnosticar uma perturbação de identidade de género na infância ou adolescência”

Sentem que nasceram com o corpo errado. Não são rapazes que querem ser raparigas. Dizem que são raparigas com pénis. Não são raparigas que querem ser rapazes. Dizem que são rapazes com uma vagina. Nem sempre é possível identificar e diagnosticar uma perturbação de identidade de género na infância ou adolescência. São crianças que muitas vezes acabam por receber um rótulo de Maria-rapaz, “mariquinhas” ou, mesmo, homossexuais. Mas não é a mesma coisa. No mundo da transexualidade lida-se com algo que é muito diferente de orientação sexual: lida-se com a identidade. E a verdade é que quando os transexuais são recebidos pelos especialistas, já na idade adulta, dizem que estão à espera do verdadeiro corpo desde muito cedo. Desde sempre.

“Olá. O meu nome é Josie. Faço anos no dia 16 de Abril. Sou uma rapariga. E tenho um pénis.” David Elisco, produtor do documentário Sexo, Mentiras e Género, da National Geographic, conta como conheceu Josie Romero, uma criança com oito anos, do Arizona, Estados Unidos. Foi através de um vídeo caseiro onde se via uma menina loira, sentada numa grande cadeira que lhe deixava os pés soltos a abanar no ar. Josie foi notícia em muitos jornais e programas de televisão como exemplo de uma criança com perturbação de identidade do género e porque está autorizada a iniciar os tratamentos hormonais quando chegar aos 12 anos.

No final do ano passado, os pais de Josie contaram ao mundo a história do seu filho Joey, que aos quatro anos lhes comunicou: “Sou uma rapariga.” Primeiro, pensaram que o seu filho era homossexual e pareciam dispostos a aceitar o facto. Alertados pelo pediatra, entraram no conceito da perturbação de identidade do género e identificaram-se. Numa metade do armário da roupa, colocaram artigos para rapaz e na outra metade penduraram coisas de rapariga. A criança não hesitava e escolhia apenas as roupas de menina. Acabaram por aceitar que Joey era Josie.

Assim como foi exemplo o caso de Alex, que, em 2004, quando tinha 13 anos, conseguiu uma autorização do tribunal australiano para iniciar o tratamento hormonal. As notícias falam de uma criança que queria tanto ser rapaz que chegou a usar fraldas na escola só para não ter de utilizar os quartos-de-banho das raparigas. Ou o jovem de 16 anos que este mês obteve, em Espanha, a autorização judicial para fazer a cirurgia de mudança de sexo.

Num documentário de 2007, da cadeia de televisão ABC, a célebre jornalista Barbra Walters apresentou três outros casos de crianças transexuais, com entrevistas às próprias e à família.

De uma forma mais ou menos estridente, todas estas notícias tiveram o mesmo efeito: uma polémica discussão. Uma criança sabe o que está a dizer quando diz que é de um sexo diferente daquele que vemos no seu corpo? E devemos intervir? Como? Quando?

Para quem pensa sobre isto pela primeira vez é fácil cair na confusão. É fácil avançar para a conclusão precipitada de que são homossexuais. Ou, para as famílias, é mais fácil encarar estas manifestações como uma fase - e tentar ignorá-las. Mas é mais complexo do que isso. As crianças com uma perturbação de identidade do género não se caracterizam apenas pela escolha dos brinquedos, das brincadeiras ou das roupas que querem vestir e que, aos olhos do mundo, são do outro sexo. Zélia Figueiredo, especialista na área de sexologia que trabalha com transexuais no Hospital Magalhães Lemos, no Porto, diz que as histórias são todas muito semelhantes. “Quando lhes pedimos para escreverem a história do que está para trás há muitos pontos comuns, tantos que às vezes parecem a mesma história.”

“São uns heróis”

Os relatos falam da infância como o marco do início do drama, diz Zélia Figueiredo. Sentem que têm um “defeito de nascença”, uma deformação física, sentem repulsa pelo corpo com que nasceram. Sofrem com isso. À medida que crescem, escondem o corpo atrás de coletes que apertam o peito, recusam ir à escola, mutilam-se, deprimem, tentam o suicídio. Não é fácil entender. Não é fácil entendê-las. E, sobretudo, não é fácil ajudá-las.

“São uns heróis”, conclui o especialista Pedro de Freitas, do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa. O sexólogo que acompanha vários casos de transexuais confirma que um dos traços comuns a muitas histórias é o facto de esta perturbação se manifestar em idades muito jovens e, frequentemente, na infância. Porém, o mais provável é que não tenha sido identificada como tal nessa altura. E tenha sido “abafada” pela presunção de uma mera fase mais arrapazada ou afeminada. Ou, mais tarde, erradamente encarada como uma questão de orientação sexual. “A questão da identidade de género não tem nada a ver com a orientação sexual”, avisa Pedro de Freitas.

Nos casos que acompanha conheceu quem, em criança, se recusava a vestir saias ou, do outro lado, quem não queria outra coisa. “O drama começa em casa, depois na escola e acentua-se na puberdade. Uma das coisas mais terríveis para alguém que se sente homem é a menstruação”, explica.

Se tudo parece apontar para uma criança ou adolescente com perturbação da identidade de género, o que fazer? “Apoiar. Desde que nos procurem cedo, nós apoiamos cedo. Mas não podemos intervir. Não posso passar uma receita para um tratamento hormonal antes dos 18 anos. É contra a lei.” Mas há medidas capazes de minimizar o sofrimento.

Uma das mais importantes é acompanhar e apoiar psicologicamente a família, que também é afectada, e outra será, por exemplo, falar com os professores. Fazer mais do que isso é complicado. “Uma cirurgia irreversível de mudança de sexo numa criança está fora de questão. E também não me parece que alguém com 12 ou 13 anos tenha estrutura psicológica e maturidade para que se possa iniciar um tratamento hormonal”, refere Pedro de Freitas.

Quanto aos pais, devem tentar o mais difícil: nem contrariar, nem incentivar, assumindo uma postura neutra. Antes disso, claro, devem procurar ajuda junto de profissionais de saúde.

“Estamos a confundir tudo”

A maioria dos casos de perturbações de identidade do género na infância e adolescência não é notícia. São raparigas e rapazes que se escondem, que gritam no silêncio ou que simplesmente sentem que “algo está errado” mas não sabem o quê. O especialista do Hospital Júlio de Matos não duvida de que estas pessoas nascem com esta perturbação. “Podem é não saber colocar o rótulo ou só tirar a cabeça da areia mais tarde.”

“Flip” é o nickname num fórum de discussão numa associação que quer apoiar a juventude lésbica, gay, bissexual ou transgénero e promover a mudança das mentalidades em relação às questões da orientação sexual e identidade de género. “Só comecei verdadeiramente a tentar resolver a minha vida aos 20 anos, quando tomei consciência de que o que sentia era mesmo muito forte e, por mais que me esforçasse, nunca seria feliz tendo um corpo e um papel feminino no mundo”, conta. No entanto, os sinais apareceram muito antes dos 20 anos. “Flip” é hoje Filipe mas lembra “a aventura da menina que desde os 3 anos se apresentava aos amigos com um nome masculino”.

“Os meus pais faziam-me passar vergonhas incríveis desmascarando-me constantemente”, conta.

Jó Bernardo tem 45 anos e prefere dizer que é transgénero [um termo mais abrangente que se aplica a pessoas que fogem dos papéis sociais de género]. Não completou a operação de mudança de sexo mas optou por um tratamento hormonal que lhe mascarou o corpo masculino com que nasceu. Só mais crescido é que terá aprendido a ler os sinais. “Estava tudo lá desde muito cedo. Desde que nasci. Tenho uma fotografia com o meu irmão gémeo em que vejo isso de forma clara. Tínhamos apenas dois anos, estávamos na praia de Santo Amaro de Oeiras, os dois, de mãos dadas, com um balde na mão e o mesmo fato de banho. A diferença é a forma como seguro no balde, com as mãozinhas para a frente, é que eu estou todo penteadinho, é que eu tenho as pernas fechadinhas…”

A forma como se segura um balde na praia não será, seguramente, um factor que entre num diagnóstico clínico de perturbação de identidade de género. Mas Jó sabe que era muito mais do que isso.

Quando se fala em crianças com esta perturbação, Luísa Ramos, psiquiatra no Hospital Conde Ferreira, no Porto, pede muita calma e bom senso. “Hoje vivemos uma grande confusão em relação ao que é o quê. Estamos a confundir tudo. Homossexuais com travestis, com transexuais… questões de identidade com orientações. E o mediatismo destas situações não ajuda a clarificar.” A psiquiatra alerta para a ambiguidade que pode existir na definição de uma criança transexual. Chegar até um diagnóstico destes “não demora dois dias ou dois meses”, diz. “É preciso uma avaliação longitudinal.”

Só depois dos 18

“Em Portugal não se fazem intervenções de mudança de sexo em menores”, afirma Rui Xavier Vieira, responsável pela comissão da Ordem dos Médicos que elabora os pareceres necessários para a realização de uma cirurgia de reatribuição de sexo, acrescentando que nunca foi apresentado nenhum pedido para um menor.

O especialista não hesita em desaprovar cirurgias irreversíveis “em crianças e adolescentes jovens”. Têm de viver “presos” nos seus corpos até aos 18 anos? “Isso é linguagem dos grupos de pressão”, responde. “Isto são processos irreversíveis, tudo tem de ser feito com muito cuidado.”

Assim, sobre uma eventual intervenção antes da maioridade, o psiquiatra admite: “Isto está tudo em grande mudança. Não tenho nenhuma oposição, mas temos de pensar em formas de abordar essa questão. Podemos, eventualmente, atrasar as alterações da adolescência nesses casos. Temos de ser razoáveis e ponderar os riscos para a saúde dessa pessoa.”

Alguns países já permitem o início do processo de mudança de sexo com um tratamento hormonal a partir dos 16 anos. Em Portugal é impossível. E mesmo em relação às intervenções em adultos, o país tem uma particularidade. “Somos o único país europeu que exige um parecer da Ordem dos Médicos para realizar este processo. Não se trata de nada imposto pela lei mas pela Ordem”, constata o especialista do Júlio de Matos.

Sobre a idade mais adequada para intervir Pedro de Freitas tem duas respostas: “Os 16 anos são a idade ideal. Os 18 são a idade legal.” Em qualquer caso, é essencial uma avaliação sobre o grau de maturidade da pessoa que está à nossa frente. “Conheço jovens com 16 anos muito maduros e pessoas com 20, 30 ou 40 que são umas crianças.”

E é preciso cumprir a lei. É preciso uma avaliação feita por duas entidades independentes que tenham chegado ao mesmo diagnóstico, é preciso apoio psicológico, psicoterapia, iniciar a terapêutica hormonal, fazer um cariótipo (avaliação cromossómica), passar pela chamada prova real de vida, pedir o parecer da Ordem dos Médicos para realizar a cirurgia e, depois de realizada a cirurgia, avançar com uma acção contra o Estado exigindo a mudança de nome e sexo nos documentos de identidade (porque em Portugal não existe uma Lei da Identidade, ao contrário de outros países). Há situações em que, nesta fase final do processo, o tribunal pode ainda pedir uma perícia do Instituto Nacional de Medicina Legal para que se verifique que o sexo no corpo corresponde ao que está a ser reivindicado.

Tudo isto implica um processo que se arrasta por vários anos e que só pode começar aos 18. Enquanto isso, os transexuais esperam. “Não, enquanto isso, desesperam”, corrige Pedro de Freitas. O único cirurgião que faz estas mudanças de sexo em Portugal é João Décio Ferreira. Apesar de estar reformado desde 2009, continua a operar no Hospital Santa Maria para atender estes pedidos.

Doença mental

Em Portugal já foram realizadas cerca de 100 operações de mudança de sexo. São cirurgias comparticipadas pelo Estado a 100 por cento uma vez que a Organização Mundial de Saúde incluiu a perturbação de identidade do género na lista de doenças mentais. “Apesar de existirem muitos grupos a exigir que deixe de constar nesta lista porque se trata de uma discriminação, acho que é bom para eles. Se sair da lista, os Estados desobrigam-se de os tratar porque deixa de ser doença. E aí vão ter de ser eles a pagar.”

Outra questão: se antes dos 18 anos ninguém pode votar ou fazer algo tão simples como tirar a carta de condução, devemos equacionar atribuir-lhe o “poder” desta decisão tão radical de autodeterminação? Filomena Neto, que coordena o departamento de bioética da Sociedade de Advogados José Pedro Aguiar Branco & Associados, sabe que esta é uma questão difícil onde não existe “preto e branco”.

“Julgo que na menoridade uma autorização para iniciar um processo de mudança de sexo teria que passar sempre por uma tutela jurisdicional que verificasse o processo. Não para discutir a opinião dos médicos, mas para assegurar que foram dados todos os passos para proteger aquele menor”, defende Filomena Neto, sublinhando, no entanto, que esta “possibilidade legal” só deveria existir a partir dos 16 anos.

“Aos 12 anos, por exemplo, choca-me. Acho que ainda não existem capacidades para essa autodeterminação. Mesmo uma autorização dos representantes legais não deveria ter influência. Teria de se ouvir o próprio. A verdade é que às vezes fazemos as maiores asneiras com as melhores das intenções.”

Há muitas perguntas e não há uma só resposta para um território tão ambíguo e complexo. Antes de tomar uma decisão irreversível é imprescindível eliminar essa ambiguidade e complexidade até ao limite do possível. Para que uma mudança destas seja algo tão simples como o caso que Pedro de Freitas lembra sobre uma mudança de sexo iniciada aos 18 anos. “Esta pessoa afirmava que sabia desde os dois anos que era mulher e tinha o corpo errado. Completámos o processo de mudança e hoje é uma mulher fantástica, muito bonita.” Ela juraria que sempre foi mulher.


Obs.: O português do texto é de Portugal. Tomei a liberdade de não "corrigir" por ser possível compreendê-lo desta forma.