domingo, 11 de abril de 2010

Ator iraniano volta as telas após readequação de gênero.


Por Staff Writer, PinkNews.co.uk • 22 de março, 2010 - 17:53

Saman Arastu, que era conhecido como Farzaneh, já tinha uma carreira de sucesso como mulher, tanto no cinema como na televisão.

Hoje, o ator de 42 anos aproveitou a flexibilidade das leis iranianas quanto ao processo de readequação sexual, e após anos de aconselhamento voltou a atuar.

De acordo com o The Guardian, Arastu disse a uma revista iraniana que ele sempre soube que era um homem.

Ele disse: "Agora estou bem. Antes só existia medo e depressão em meu olhar. Eu estava sempre me escondendo e na defensiva."

Homossexualidade é ilegal no Irã e vários gays são perseguidos.

No entanto, o país tem um visão bem diferente quanto aos transexuais.

Pelas leis Islâmicas, a readequação é aceita pela religião e o país tem o segundo maior número de cirurgias de readequação sexual no mundo, ficando atrás apenas da Tailândia.

O estado vai financiar as cirurgias de readequação, sendo que o Irã é particularmente favorável àqueles que desejam a transição de mulher para homem.

Fonte: http://www.pinknews.co.uk/2010/03/22/iranian-actor-returns-to-screens-after-gender-reassignment/

Tradução: "Homer"

sábado, 10 de abril de 2010

Além da cidadania cirúrgica.


por Mario Felipe de Lima Carvalho*

Os debates que ocorreram no seminário “Transexualidade, Travestilidade e Direito à Saúde”, evento realizado pela Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR/CEBRAP), em parceria com o Ministério da Saúde e com o Observatório de Sexualidade e Política (SPW), nos dia 24 e 25 de março, demonstraram o adensamento da articulação política e intelectual em torno do tema, ao reunir acadêmicos, ativistas, representantes do governo e profissionais de saúde ligados a serviços específicos direcionados a esta população.

No campo de estudos comprometidos com a emancipação de travestis e transexuais, parece haver certo consenso quanto ao fato de que o acesso às tecnologias médicas de transformação corporal não deve estar vinculado à patologização de tais identidades. Defende-se o direito de auto-determinação de gênero, com o respaldo do Estado na garantia de mudança do registro civil. Nesse contexto, a argumentação muitas vezes apóia-se no direito à identidade e no respeito à dignidade humana. Assim, as tecnologias médicas seriam ferramentas da garantia de direitos. Porém, o que observamos é uma certa inversão na qual os direitos são subordinados ao saber médico. Durante o debate, Mirian Ventura refere-se claramente a isso quando afirma que “vivemos uma medicalização da justiça e não uma judicialização da medicina”.

Na maioria dos processos judiciais que envolvem mudança do registro civil (nome e sexo) de travestis e transexuais, um critério importante levado em conta pelos operadores da justiça é o/a requerente ter passado por todas as etapas do processo transexualizador, incluindo a cirurgia de transgenitalização. Obviamente existem exceções, mas essas sempre dependem da sensibilidade do poder judicial local. Assim, de maneira geral, a questão médica antecede o direito civil. Ao longo do encontro não foram poucas as intervenções de ativistas que ressaltaram a centralidade da luta pelo uso do nome social e facilitação da mudança do registro civil, colocando inclusive ser esse um processo que deve ocorrer antes de qualquer intervenção médica. O que se quer, antes de mais nada, é que o respeito à identidade e à dignidade humana sejam protegidos pelo Estado. Porém, a medicina parece estar acima do direito, cabendo ao médico atestar ou não a legitimidade das demandas de travestis e transexuais. Nesse contexto me parece que a visão biológica do ser humano e de sua vida prevalece sobre uma visão mais filosófica dos direitos humanos. Para Mauro Cabral, essa espécie de “cidadania cirúrgica” não seria uma vitória, mas um problema, um processo de tortura sancionado pelo Estado. Assim, em nome da dignidade humana seria necessário romper com a medicalização.

Frente a isso, alguns levantaram a questão de Como combater a medicalização num grupo que buscaria ser medicalizado?. Não estou certo de que a população de travestis e transexuais hegemonicamente busca uma medicalização de suas identidades. Acredito sim na existência de uma demanda comum por tecnologias médicas, sejam elas farmacológicas ou cirúrgicas.

É interessante notar que muito do que foi dito no encontro sobre medicalização, processo transexualizador, acesso à terapia hormonal, retirada de silicone industrial e implantes com silicone cirúrgico, não partiu da militância travesti presente no seminário. A preocupação com os serviços de saúde “específicos”, principalmente no que tange seu funcionamento e acesso, era muito mais presente na fala daqueles e daquelas que se identificam como transexuais. No caso dos homens transexuais, há uma demanda mais imediata que é a retirada no processo transexualizador do caráter experimental de procedimentos como a mastectomia (retirada das mamas) e histerectomia (retirada do útero), uma vez que tais procedimentos já são realizados em outros casos (em mulheres que têm câncer de mama, por exemplo), diferentemente da neofaloplastia (construção do neofalo). Já o discurso das mulheres transexuais presentes no debate centrou-se nas dificuldades impostas ao acesso ao processo transexualizador pelo protocolo diagnóstico. Hoje, tal protocolo inclui dois anos de acompanhamento psicoterápico e a necessidade da avaliação psiquiátrica. Na portaria do Ministério da Saúde sobre o processo transexualizador, não há nada que coloque a necessidade do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero (TIG), mas apenas uma avaliação psiquiátrica, que pode ser compreendida de duas maneiras: atribuição do diagnóstico de TIG ou uma avaliação das capacidades psíquicas para o consentimento da cirurgia, tal qual é feita em outros processos cirúrgicos, como a cirurgia bariátrica (“redução de estômago”). É uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que estabelece a necessidade do diagnóstico de TIG para a cirurgia de transgenitalização.

Para o movimento de travestis e transexuais no Brasil, a questão do reconhecimento social e jurídico de suas identidades é ponto central, de maneira que o debate em torno da despatologização da transexualidade parece não ter eco. Os problemas seriam outros. Muitas/os ativistas ressaltaram que após a criação de serviços especializados, como o ambulatório TT em São Paulo, travestis e transexuais que chegam a qualquer Unidade Básica de Saúde com problemas relativamente comuns como asma, gripe ou dor de cabeça, são encaminhadas/os para o serviço especializado. “Seria a dor de cabeça de uma travesti tão diferente da dor de cabeça de qualquer outra pessoa?” Coloca-se assim em questão a melhor forma de concretizar o princípio de universalidade do SUS, que pressupõe o atendimento a qualquer cidadão.

Durante o encontro ficou nítida a tensão entre duas posições. De um lado há um discurso intelectual, em diferentes graus de interlocução com a produção teórica de Judith Butler, que afirma a necessidade de combater a medicalização e a patologização da variância de gênero e critica a artificialidade das identidades travesti e transexual, assim como ao binarismo de gênero pressuposto nas políticas públicas. De outro lado, um discurso pragmático, defendido sobretudo pelo movimento, que quer atendimento digno nos serviços de saúde e que afirma as identidades de diversas maneiras, mas principalmente para a elaboração de políticas públicas.

Ressalta-se que esse desencontro discursivo entre academia e movimento não é absoluto. A militância de muitos países, por exemplo, tem a bandeira da despatologização como pauta central, mas esse não é o caso brasileiro. Acredito que tal desencontro não seja apenas entre teorias, mas articula-se à urgência do reconhecimento identitário como ferramenta de combate à violência cotidiana sofrida por travestis e transexuais. Não se trata obviamente de desmerecer o trabalho de diversos acadêmicos em torno da despatologização. Trata-se de um debate necessário e importante mesmo não sendo central para o movimento.

Além de diferenças entre o discurso intelectual e militante, ambos divergiam, em alguns aspectos, do discurso médico. A fala do psiquiatra Alexandre Saadeh durante o seminário da CCR gerou incômodos. O vocabulário médico-psiquiátrico destoa do utilizado pela militância e pelo campo de estudos sócio-antropológicos. Enquanto o discurso médico identifica o sujeito a partir do “sexo biológico”, o militante e o acadêmico identificam o sujeito a partir do gênero auto-atribuído. Ao que parece, é crucial superar diferenças de linguagem e disputas profissionais para construir alianças estratégicas com a classe médica. Porém, é notável o quanto os médicos presentes no seminário não emitiam opiniões pessoais. Tudo que diziam baseava-se em alguma norma, lei ou resolução do CFM. Sabemos que as mudanças no pensamento médico ocorridas ao longo da história se deram também por pressões sociais, mas sabemos que vozes discordantes dentro da classe médica foram fundamentais. Assim, as alianças com a classe médica devem incluir profissionais dispostos à disputa interna que, do meu ponto de vista, é claramente política em torno das normas de gênero e sexualidade.

* Mário Felipe de Lima Carvalho é psicólogo, mestrando em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ), onde realiza pesquisa sobre o movimento de travestis e transexuais. mariofelipec@yahoo.com.br

Publicada em: 31/03/2010 às 10:00 artigos e resenhas

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Não é só no Brasil que existem dificuldades...


Batalha por um novo certificado.

Postado dia 7 de abril de 2010, quarta-feira.


Por Ani Lamont

O australiano, e homem transexual, Conor Montgomery irá apresentar uma queixa a Comissão de Direitos Humanos Australiana Contra o Registro de Nascimentos, Falecimentos e Casamentos do estado de New South Wales, devido a recusa do cartório em proceder a retificação no seu certificado de nascimento.

Ele pretende apresentar também outra queixa, ao Ministério Público australiano, e levar a ambos os locais uma petição com mais de 500 assinaturas.

Montgomery, que está com 50 anos, vive como homem por mais de dois anos e meio. Ele se submeteu ao tratamento hormonal e a mastectomia bilateral, conseguindo dessa forma alterar sua identificação no passaporte para gênero masculino. O cartório de NSW no entanto, não vai retificar o restante de seus documentos a menos que ele passe por uma cirurgia potencialmente perigosa para ele.

Devido a problemas de saúde, Montgomery foi aconselhado pelos médicos a não fazer a cirurgia genital, pelo receio de que ele pudesse correr risco de morte. Ainda assim, o cartório insiste na cirurgia como a única forma de permitir a retificação da documentação.

"É ridículo", diz Montgomery. "Em alguns documentos está escrito masculino e minha certidão de nascimento diz feminino. Essa situação já me causou um grande estresse desnecessário. Eles precisam parar de atrapalhar a vida das pessoas, e me darem os documentos retificados de forma correta para que eu possa viver como o homem que sou."

"O governo falhou quanto a implementação de mudanças nas leis e políticas que garantam essa retificação, recomendada após estudos, pela Comissão Australiana de Direitos Humanos." Diz a porta voz da SAGE (Educação de Sexo e Gênero) Tracie O' Keefe.

"Foi recomendado que pessoas como Conor, não precisem passar por cirurgias desnecessárias para retificar seus documentos."

Info: Para maiores informações sobre o SAGE, visite http://www.sageaustralia.org/

Fonte: http://www.starobserver.com.au/news/2010/04/07/new-certificate-stoush/23664

Tradução: "Homer"

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Congresso Internacional sobre Identidade de Gênero e Direitos Humanos - Barcelona 4 a 6 de junho de 2010


Introdução

A transexualidade se faz presente há muito tempo, em todas as sociedades humanas conhecidas, independentemente do progresso alcançado pela medicina moderna, que possibilita hoje, uma melhor adaptação física ao gênero que o indivíduo sente pertencer. A compreensão que essas diferentes sociedades têm quanto a realidade destes seres humanos, no entanto, varia amplamente tanto no tempo, como em diferentes partes do mundo. Algumas sociedades aceitaram, em diferentes níveis, esta realidade, criando instrumentos sociais e leis para melhorar a integração social dos transexuais, com todos os seus direitos civis assegurados. Outras, ao contrário, tem expressado graus variados de rejeição e / ou perseguição e supressão da transexualidade, promovendo políticas violentas que resultam em sérias violações dos direitos humanos.

Hoje em dia, enquanto alguns países reconhecem a transexualidade como uma condição do ser humano, e portanto tem desenvolvido ferramentas para a proteção e reconhecimento dos seus direitos civis (o direito ao matrimônio, a receber assistência médica durante a transição, o reconhecimento civil da mudança de identidade, ao exercício dos direitos parentais, etc...), outros países impõem políticas repressivas que incluem aprisionamento, punição corporal ou até mesmo pena de morte. Outras sociedades, por sua vez, praticam vários atos considerados menos extremos como violência institucional (assédio por parte da polícia e semelhantes), ou tolerância a certos tipos de violências praticadas contra transexuais (falta de proteção legal ou policial contra assassinato, linchamento ou delitos menores), que também são contrárias a Carta Fundamental dos Direitos Humanos da ONU.

Finalmente, até mesmo nas sociedades mais avançadas com relação a aceitação e reconhecimento da transexualidade, esse grupo de pessoas sofre com altos graus de rejeição social, dificuldade de inserção no mercado de trabalho, ao acesso a moradia, saúde, ao exercício familiar, e aos direitos sexuais e reprodutivos, o que faz com que este grupo se encontre em um alto grau de desvantagem social.

Os transexuais, estatisticamente falando, são um dos grupos mais afetados pela marginalidade (prostituição, drogadição, etc...) e pela dificuldade em encontrar empregos, além de ser, provavelmente, o grupo com as mais altas taxas de suicídio bem como de mortalidade pela falta de assistência médica adequada durante a transição. Os progressos específicos alcançados em países como Espanha, Uruguai, Grã - Bretanha, Holanda, etc. não escondem, uma vez que nos movimentamos em um mundo globalizado, o alcance limitado dessas ações, normalmente não reconhecidas fora das fronteiras dos países envolvidos.

Dentro deste contexto, a Human Rights Watch, junto com várias administrações públicas estrangeiras, e espanhola, decidiu organizar o Congresso Internacional sobre Identidade de Gênero e Direitos Humanos, que conta ainda com uma ampla coalisão de grupos e associações que lutam pelo reconhecimento dos direitos dos transexuais, além do movimento espanhol, e internacional, pelos direitos dos LGBT. A idéia do congresso em uma conferência mundial feita por transexuais, com transexuais e para transexuais, tem como objetivo final unir e dar voz a um grupo representado de forma esparsa na sociedade, e de ouvir pela primeira vez, com a participação de membros de diversos países e de diferentes culturas, sobre seus problemas, demandas e possíveis soluções. E finalmente, a elaboração de um documento básico a ser endereçado aos Estados, organizações internacionais, associações e Ongs, que venha a servir como diretriz para implementação de uma política legislativa, e de proteção dos direitos humanos, direcionada aos indivíduos transexuais.

Site do Congresso: http://www.congenid.org/

Fonte: Repassado por email pela colaboradora Glória.

Tradução: "Homer", da versão em inglês disponível no site do congresso.

Piauí lança 43ª edição


São Paulo, 8/4/2010

A edição número 43 da Revista piauí, que nesta semana chegou às bancas de todo o Brasil, conta com divulgação por meio de campanha publicitária criada pela agência carioca Loja Comunicação.

A ação conta com anúncios para jornais e revistas, spot para rádio e filme para veiculação em cinemas. Paralelamente à divulgação de sua edição 43, a piauí veicula uma campanha institucional, com comercial na TV Globo, exclusivamente no Rio de Janeiro.

Entre as reportagens da piauí de abril destacam-se:

Cartas – O ministro Nelson Jobim comenta o portfólio da Military Fashion Week e mostra que entende mesmo do assunto.

Diamantes negros – Reportagem de Daniela Pinheiro mostra a África do Sul vinte anos depois do fim do apartheid e a nova elite negra ligada ao governo que tem mudado a cara do país.

Como mudar de sexo – A reportagem de Clara Becker mostra os detalhes dessas operações e especialista em cirurgias de mudança de sexo e seus pacientes num hospital público do Rio de Janeiro.

Craque não precisa jogar – Mais um tipo brasileiro que está muito em voga: o craque de futebol que brilha sem suar a camisa. Texto de Marcos Caetano.

Guerra civil em Palermo – A fotógrafa italiana que registrou os crimes da Máfia Siciliana. Texto e fotos de Letizia Battaglia.

A igreja de Warren Buffett – Reportagem de Mattathias Schwartz sobre o encontro anual da sociedade do bilionário americano, 35 mil fiéis celebram a estrela-guia das finanças.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Trans podem usar nome social na escola em 10 Estados brasileiros


05/04/2010 - 12h19

Por : Hélio Filho

Segundo a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), já chega a 10 o número de Estados brasileiros que aceitam o uso do nome social para alunos e alunas transexuais e travestis. O resultado faz parte de um esforço conjunto entre a ABGLT e a Articulação Nacional de Travestis (Antra) lançado em 29 de janeiro de 2009.

Aceitam o nome social de alunos maiores de 18 anos em seus documentos escolares da rede pública de ensino os Estados de Goiás, Santa Catarina, Paraná, Piauí, Paraíba, Pará, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Alagoas. Existem também decisões pontuais como a Secretaria de Educação de Belo Horizonte, em Minas Gerais.

Fonte: http://mixbrasil.uol.com.br/pride/seus-direitos/trans-podem-usar-nome-social-na-escola-em-10-estados-brasileiros.html

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Porque ter opinião também é importante.


Desfavor do dia 3.3.10 : Flertando com o desastre: Transexual.

Transexual, em um resumo bem simplificado, é aquela pessoa que possuí uma identidade de gênero diferente daquela que lhe foi atribuída no seu nascimento, apresentando sensação de desconforto, impropriedade ou inadequação em relação a seu sexo anatômico. É aquele discurso de ser “uma mulher presa no corpo de um homem” (ou vice versa). Não confundir com os homossexuais, que estão muito contentes com seus corpos, apenas sentem atração por pessoas do mesmo sexo (mil perdões pelas simplificações banalizantes, é que tenho um limite pequeno de páginas para escrever).

Transexualidade ainda é classificado como um “transtorno mental”, porém alguns países como a França já não encaram mais a transexualidade como “doença”, o que a meu ver, é um enorme avanço. Quem foi que disse que uma pessoa de fato não pode ter nascido com o sexo mental diferente do físico? Só porque não aconteceu comigo ou porque eu não entendo, não quer dizer que não exista ou que seja doença. Transexuais existem. Não adianta ficar discutindo aqui o que a gente acha ou deixa de achar da pessoa ser transexual. É uma realidade e é preciso lidar com ela. O foco da discussão não é o que nós pensamos dos transexuais e sim como lidar com a questão na prática.

E não é uma “novidade” dessa vida moderna, de uma geração “perdida” e “sem valores”. Eles existem desde sempre. Um imperador romano (salvo engano, seu nome era Heliogábalo) casou com um escravo e ofereceu metade do seu império para o médico que conseguisse modificar seu sexo cirurgicamente. Há fortes evidências de que o Papa João VIII era na verdade uma mulher travestida de homem. O rei Henrique III, da França, se vestia que nem mulher. Como este, tenho dezenas de exemplos para dar. Então, para aqueles que acreditam que se trata de uma “desgraça dessa nova geração”, pensem duas vezes.

Até mesmo em tribos isoladas da vida “civilizada” há relatos de transexualidade e até mesmo rituais de mudança de sexo. É inerente a alguns seres humanos, em qualquer época, em qualquer contexto social e antropológico. Só porque você não compreende, não quer dizer que não aconteça e que não seja real. Não é loucura da cabeça das pessoas, não é sintoma de doença, não é trauma de infância. É realidade. Pessoas nascem com uma personalidade de um sexo e corpo de outro.

Quando devidamente comprovada a condição de transexual, e por devidamente comprovada, estamos falando de um laudo médico, a lei brasileira autoriza que seja realizada uma cirurgia de Reatribuição Sexual (ou Redesignação Sexual). Entretanto, esta cirurgia só está disponível de forma satisfatória para os homens (sim, isso mesmo, corta fora). Não gosto do termo cirurgia de “mudança de sexo”, pois para os transexuais, eles não estão mudando de sexo, estão apenas corrigindo seus corpos, que não correspondem a suas mentes, suas almas ou qualquer outro nome que se queira dar. Para as mulheres, salvo engano, ainda não é possível realizar cirurgicamente a redesignação sexual.

Eu costumo brincar dizendo que os avanços da medicina são ótimos para a minha vida, mas para a minha profissão são um caos. Porque avanços médicos fodem com o direito. Criam uma lambança nas normas pensadas para situações onde estes avanços não existiam. Fico feliz que exista a cirurgia de redesignação sexual, mas ela criou uma série de dificuldades formais que passo a expor, e peço a opinião de vocês. Não vou entrar em termos técnicos nem aprofundar o assunto, porque isso aqui não é um blog jurídico. Vocês sabem o esquema do Desfavor: conversa como se fosse em uma mesa de bar.

O primeiro problema diz respeito à documentação da pessoa que fez a cirurgia de redesignação sexual. Um transexual chamado Wanderlei que faz a cirurgia e “muda” de sexo, evidentemente não pode continuar com um documento de identidade onde se lê o nome “Wanderlei”, porque puta merda, isso seria vexatório. Imagine o constrangimento que essa pessoa passaria. Imagine uma bela mulher de cabelos longos e seios fartos esperando em uma fila de um repartição pública qualquer, quando um funcionário chama “WANDERLEI DA SILVA!” – e ela tem que se levantar sob os olhares curiosos dos demais presentes. Não pode. Desumano, a meu ver. Acho que deve ser permitida a troca de nome nos documentos. E vocês?

Também me parece extremamente preconceituoso mudar o nome de Wanderlei para Wanderléia e dizer no documento que se trata de uma pessoa do sexo masculino. Daí sempre vem um espírito sem luz dizer que transexual não é mulher, porque não tem útero nem ovário. Ora, se for assim, uma mulher que fez uma histerectomia total deixa de ser mulher? Mudar apenas o nome e deixar o sexo como “masculino” fere igualmente a dignidade da pessoa, concordam?

Tem aqueles que dizem que pode mudar nome, pode constar como “sexo feminino” mas deve constar algum registro na documentação de Wanderlei dizendo que um dia ele foi homem. Porra, que constrangimento! Porque a pessoa se submete a uma cirurgia complicadíssima para se sentir mais adequada, se vai continuar marcada em seu documento de identidade? Acho um absurdo sujeitar uma pessoa a isso. Mas tem quem defenda que isso preservaria o resto da sociedade, numa vibe meio “não levar gato por lebre”. Geralmente são os homens que usam este argumento. Eles tem medo de um dia sair com a bela Wanderléia e depois de um tempo de namoro descobrir que ela já foi Wanderlei. Gente, vamos abrir a cabecinha? Nos apaixonamos por SERES HUMANOS. Faz tanta diferença se Wanderléia já foi Wanderlei?

Mais uma polêmica: o Estado deve disponibilizar esta cirurgia de forma gratuita? Na minha opinião, nem tem o que pensar. Se o Estado gasta rios de dinheiro tratando imbecilóides que VOLUNTARIAMENTE fumaram a vida toda detonando seus pulmões, POR PURA IMBECILIDADE E FALTA DE FORÇA DE VONTADE, porque não tratar alguém que não concorreu em nada para seu problema? O Estado gasta fortunas com gordinhos que enchem o cu de doce e acabam com artérias entupidas e diabéticos, por pura preguiça, mas não pode amenizar o sofrimento de alguém que não tem culpa de seu sofrimento? O Estado faz redução de estômago em pessoas que estão do tamanho do Balão Mágico porque não tem a força de vontade de parar de comer feito porcos e não quer gastar dinheiro com pessoas que estão batalhando para se adequarem à sociedade?

E tem mais um questionamento. Como eu disse, ainda não se inventou uma cirurgia de reatribuição sexual efetiva para mulheres que se sentem homens. Então, todas as mulheres transexuais estão condenadas a ter em sua identidade o nome de mulher, mesmo se vestindo e se sentindo como um homem? Mesmo fazendo tratamentos hormonais que as deixa com aparência de homem? Seria a cirurgia condição absoluta para a troca de nome na certidão de nascimento e na identidade? Isso criaria uma injustiça, porque todos os homens transexuais poderiam ter a chance de mudar de nome e sexo e as mulheres não, por culpa da medicina que não é capaz de lhes dar esta cirurgia.

Ao mesmo tempo, se a gente admitir a possibilidade de mudança de nome e sexo da pessoa sem a cirurgia, poderíamos criar a seguinte situação: Wanderléia, certidão de nascimento e carteira de identidade constando sexo feminino, tem pênis. Estranho. Ser injusto ou ser incoerente? Escolha difícil.

E vem mais um problema: Wanderlei tentou abafar sua condição de transexual por medo da reprovação social. Casou e teve filhos. Um dia, não agüentou mais sufocar sua verdadeira identidade e decidiu fazer a cirurgia de redesignação sexual. Depois de operado, mudou seus documentos. Como fica a certidão de nascimento do filho de Wanderléia? Seria correto mudar o nome do pai para um nome feminino? Isso é nocivo para a criança? Deixa como Wanderlei na documentação da criança e como Wanderléia na documentação do transexual? Não pode. Ou muda tudo ou não muda nada. Que porra é essa de uma pessoa ser mulher em um documento e homem no outro? O que fazer?

O Judiciária brasileiro vem aceitando adoção de crianças por casais em união homoafetiva. Então, se um casal de homossexuais pode adotar uma criança, constando na documentação da criança dois pais ou duas mães, porque não mudar o nome se o pai se mostrar transexual? Tem quem diga que isso iria expor a criança. Olha, quando seu pai usa salto 12, coloca silicone no peito, usa batom e corta fora o bilau, não tem muito como esconder essa transformação da criança, portanto, não sei bem se isso é algo do qual a criança possa ser “poupada”. É uma realidade, quanto mais naturalmente ela for aceita, melhor.

A lei brasileira ainda não tem respostas seguras para todas essas questões que eu coloquei. Os entendimentos variam. O certo é que se busca sempre preservar a dignidade da pessoa humana.

Eu sei que muitos de vocês estão torcendo o nariz para mim agora. Mas vamos ter um pingo de humanidade? Nada como se colocar no lugar dos outros para emitir uma opinião. Já pensou como deve ser DIFÍCIL PRA CARALHO você se sentir de um sexo e seu corpo ser de outro? Já pensou? Se muitos acham um tormento conviver com detalhes do corpo com os quais não se sentem bem, como um nariz feio ou seis pequenos, imagina a merda que é você não gostar do seu corpo como gênero?

Porque se uma patricinha não gosta do seu nariz de batatinha ela pode ir ao cirurgião corrigir seu nariz de porquinha (a ainda ostentar isso), enquanto que uma pessoa que sofre uma sensação de inadequação mil vezes maior não pode ter um conforto para amenizar seu sofrimento? E muitas vezes nem mesmo a cirurgia ameniza o sofrimento, é necessário mais para uma vida minimamente digna: cirurgia + mudança de toda a documentação, sem que conste em nenhum lugar nenhum registro de que um dia a pessoa foi do sexo oposto.

Daí vem sempre alguém dizer que não podemos brincar de Deus e que se começarmos a mudar o sexo assim vamos acabar criando situações aberrantes. Primeiro que a gente brinca de Deus o tempo todo. Se a medicina não brincasse de Deus, eu mesma não estava aqui, teria morrido aos 25 anos. Mantemos vivas pessoas que, pelos ditames da mãe natureza, deveriam estar mortas. Modificamos corpos até que percam sua aparência humana (Michael Jackson? Oi?). Escolhemos características de bebês geneticamente, criando um supermercado de gente... etc, etc. Mas, na hora de conferir condições dignas a um ser humano em sofrimento por não se sentir adequado a seu gênero, as pessoas pedem moderação? Não, por favor não. Não posso com esse discurso.

“Mas Sally você gostaria que mudassem o sexo ou o nome do seu pai na sua certidão de nascimento?”. Se meu pai se vestisse como uma mulher, falasse como uma mulher, e se sentisse como uma mulher, SIM, POR FAVOR! Ou por acaso eu quero estar com meu pai, uma loira gostosa, no aeroporto na fila do embarque e ouvir alguém chamando ele de Wanderlei?

Já vi gente propondo criar um terceiro gênero de banheiro público além do Feminino e do Masculino: Transexual. Gente, se o homem CORTOU FORA O PRÓPRIO PAU, vocês acham mesmo que ele vai ficar manjando mulher no banheiro feminino? Tem dó de mim! A coisa tem que caminhar para a inclusão, para a compreensão e para a aceitação, e não reforçar a discriminação com um banheiro que mostra à sociedade que a pessoa é transexual!

Para aqueles que estão se contorcendo na cadeira e pensando que isso não é uma coisa “natural”, lamento. A cirurgia de redesignação sexual é uma realidade e vem sendo realizada no Brasil. Aceitem. Aceitem a escolha alheia. Pensem, sem dar nomes, classificar como “doença”, “aberração” ou qualquer outra definição preconceituosa. Apenas PENSEM NA SITUAÇÃO: você, se sentindo de um sexo, em um corpo de outro sexo. Pensem como deve ser difícil viver assim. O peso que essas pessoas carregam é por si só suficiente, não precisam de julgamentos, preconceitos e discriminação. E muitas vezes, mesmo com este complicador enorme, elas são melhores pessoas do que nós, aqueles ditos como “socialmente adequados”.

Façam um exercício de imaginação comigo. Supondo que todos pudessem modificar seus sexos e documentos de identidade. Supondo que você descobrisse hoje que a pessoa que você AMA já foi do sexo oposto. Você largaria essa pessoa? Se alguém respondeu “sim”, vou ficar muito desapontada.

O ser humano é complexo, é diverso, é inclassificável nesses rótulos fixos ultrapassados. Somos todos SERES HUMANOS, foda-se o que cada um faz com seu corpo ou com a sua sexualidade. Muito fácil julgar a sexualidade DOS OUTROS, quando esta se torna pública e a nossa continua privada. Se a sexualidade de TODOS fosse pública, garanto que descobriríamos que os heterossexuais também fazem coisas que podem ser objeto de preconceito e discriminação. Se a sua sexualidade, suas preferências, suas práticas, se tornassem públicas... será que parte da sociedade não te discriminaria? Pense nisso. E pare de jogar pedras naquelas pessoas cuja sexualidade se tornou pública por total falta de opção.

Para dizer que nunca mais volta no Desfavor e depois voltar e ficar metendo o malho na gente, para dizer que transexual é quando se trata de uma pessoa da sua família, porque se for o vizinho é um viadinho e para perguntar ao Somir se ele anda feliz com os temas que eu venho escolhendo: sally@desfavor.com


NDAB: Por favor, não se atenham a possíveis trocas de "conceitos", p.ex. homens transexuais como mtfs e vice versa, e sim ao todo do texto. Ninguém é perfeito (ufa!), nem sabe tudo (ainda bem), mas opiniões que validem, acima de tudo, o direito a ser quem se é, sempre terão seu lugar. Algumas opiniões expressadas no texto acima, não são necessariamente as mesmas do autor deste blog.