segunda-feira, 27 de abril de 2009

Homens perfeitos?!


Algo que ouço e leio de forma rotineira, é o fato de mulheres biológicas e mtfs acharem que nós somos homens “perfeitos”.

Não somos. Primeiro porque perfeição é algo perigoso, um busca individual, e que na maioria das vezes, frustra quem busca por nunca conseguir suprir de forma total o que se deseja.

Segundo, e mais importante, porque nós somos homens iguais a qualquer outro que anda por aí, com características de personalidade distintas e singulares. Distintamente transexuais, porém homens. Parece complicado, mas não é.

O fato de ter uma vivência feminina não é vista com bons olhos por todos, e muitos tentam até enterrar esse passado de forma quase obsessiva, e trazer a tona qualquer resquício desse momento pode provocar reações inesperadas.

Claro, nem todos pensam assim, e abraçam o que nos foi deixado, mas isso não significa vivenciar na atualidade o que ficou lá atrás.

Talvez sejamos um pouco mais sensíveis, talvez não. Talvez sejamos um pouco mais pacientes, talvez não. Talvez sejamos melhores ouvintes, talvez não. A lista de possibilidades é infinita, e vai variar da disponibilidade de cada um, da introjeção dos estereótipos, de características de personalidade, e do grau de resposta a hormonização.

Sim, hormônios fazem diferença quer queiram, quer não. Existem diferenças que não dependem somente do meio, mas também da influência hormonal. Ninguém vira um monstro por tomar testosterona, um troglodita da noite para o dia, mas existem alterações para uma expressão cada vez mais masculina. Já pontuamos várias vezes, em posts anteriores, essas possíveis alterações.

É natural que saibamos bem o quanto dói uma cólica, e o que fazer para amenizá-la, coisa que um homem biológico nem sempre sabe, mas isso não significa que teremos paciência com a tpm alheia. Podemos acompanhar nossas companheiras as compras, ou companheiros, mas não esperam reações enfáticas do tipo “que lindo acho que fica ótimo em você”, ou paciência para andar por horas a fio e não comprar absolutamente nada. O mais provável é ouvir coisas do tipo “você que sabe”, “tá bom” ou “gostou, compra logo”, além daquela cara de tédio de quem carrega sacolas, enquanto a companheira olha vitrines à procura de algo.

Claro, existem exceções, mas por mais que um homem goste de comprar roupas, perfumes, e coisas socialmente ditas como domínio feminino, não será da mesma forma que uma mulher.

Alguns são machistas, sim bem machistas e tradicionais, algo quase do século 19, e outros chegam a ter o perfil de homens que agridem mulheres, apesar de toda uma vivência anterior no sexo feminino.

A principal situação é que quem se relaciona com homens transexuais, se relaciona com homens e ponto. Não esperem comportamentos ou características mais femininas quando da busca de uma relação conosco, porque isso pode não ocorrer. Ou ir diminuindo sobremaneira com o tempo, e os benditos hormônios.

Isso não quer dizer que não vale a pena investir em um relacionamento assim. Vale a pena investir em qualquer relacionamento afetivo, seja com quem for e como for, onde o amor seja verdadeiro, e o diálogo seja franco para superar, juntos, frustrações, dúvidas e medos.

Mas definitivamente, não somos perfeitos. Somos indivíduos, com toda a bagagem específica de vida, características ímpares que fazem de cada um de nós únicos, e ainda assim tão semelhantes.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Grupo de apoio a transexuais em Campinas



As psicólogas Bárbara e Maria Angélica realizam na cidade de Campinas encontros de apoio a transexuais, tanto mtfs quanto ftms. Seus respectivos familiares e / ou companheiras(os), também são bem-vindos. Não é psicoterapia, são encontros para discussão de assuntos, troca de idéias e suporte mútuo.

Os encontros são gratuitos e se realizam um vez por mês, no sábado à partir das 15hs. Quem quiser participar basta ligar para o Centro de Referência GLTTB de Campinas no telefone (19) 3242-7744 e confirmar endereço e presença com a Dra. Bárbara.

Vale dizer que oportunamente serão divulgadas aqui as datas dos encontros. Quem estiver em São Paulo, Campinas e arredores vale a pena conferir.

Chegou o dia da minha audiência...O QUE EU DIGO?!


Muita calma nessa hora. Primeiro de tudo, ficar nervoso, ansioso é normal, afinal de contas você trabalhou por alguns anos para chegar até o momento de ter reconhecido seu direito de fato de ser um cidadão do sexo masculino.

Como já foi dito aqui anteriormente, o ideal é dar entrada após estar masculinizado de forma a não levantar mais dúvidas, e ter feito a mastectomia e a histerectomia com ooforectomia.

“ Caso eu faça só uma, vou perder?”

Não necessariamente, mas suas chances diminuem sobremaneira, uma vez que útero e ovários são órgãos reprodutivos femininos, onde ocorre a produção de hormônios femininos, e que querendo ou não, remetem a maternidade e a feminilidade.

Não esqueça que contamos com a dificuldade da cirurgia genital, que não é feita pela maioria em função da dificuldade técnica. Já é difícil explicar para um indivíduo leigo como alguém se diz homem, porém ainda mantêm genitais femininos, que dirá com útero e ovário.

Se você for daqueles corajosos que optam por tentar fazer a metoidioplastia ou a faloplastia, é mais interessante dar entrada ao processo também após a histerectomia / ooforectomia. Com certeza você está inserido em um serviço, com a carta para a cirurgia genital, e como tal cirurgia pode ser demorada, o processo também. Basta anexar a indicação cirúrgica ao processo.

Porém uma situação é ponto pacífico: quanto mais hormonizado, melhor, com aquela cara de um sujeito comum, que pode ser o amigo eventual de chopada do juiz. Esse é um grande passo para imprimir a nota destoante na cabeça do juiz e do promotor. Sim, aparência conta.

O juiz e o promotor desconhecem o assunto. Não espere que eles entendam você logo de cara, afinal nem você se entendia por um bom tempo. A essa altura, eles já leram seu processo, já procuraram informações, e tem inúmeras perguntas para fazer.

E sim, você tem que responder a tudo. As perguntas podem ser discretas, ou parecerem indelicadas, mas aquelas duas pessoas vão decidir o destino social de alguém com base em uma seara que não é a deles.

O juiz e o promotor deveriam ser imparciais. Mas não se esqueça que eles são pessoas, e opiniões pessoais podem interferir sim. Cabe a você então, dirimir as possíveis dúvidas, e quem sabe preconceitos, que eles possam ter sobre o assunto.

Você sabe o que dizer. Não se preocupe, seja você mesmo. Não monte longos textos, nem decore nada. Seja simplesmente você. Aquele que caminhou até o derradeiro momento de sua alforria, que sabe pelo que passou, e como passou. Apenas verbalize sua trajetória, demonstre ser seguro de si, dono dos seus passos, sem medos ou vergonha. Nem juiz, nem o promotor mordem, muito menos são as representações de Deus.

Tenha em mente que esse é o final do primeiro ato da sua vida. Enquanto você estrela nesse palco o seu monólogo, juiz e promotor serão aqueles responsáveis por descerrar as cortinas. Porém quando elas se abrirem para o começo do segundo ato, será você que irá abrir as possibilidades e brilhará, agora em definitivo, no palco da vida.

Make me a Man - Documentário - Parte 3 de 5