quarta-feira, 31 de março de 2010

Histórias de Vida X - Sim, tudo é possível - Parte 2, por Ultraman.


Nessa época me revoltei com Deus por tudo. E, na prática, tive que entrar na justiça contra a agência onde trabalhava antes, para ver se pelo menos recebia os salários atrasados e os direitos trabalhistas. Em 3 meses consegui encerrar esse processo. Era uma grana até que boa, já que tinha um bom salário antes de tudo ferrar. No acordo ficou combinado que receberia em 12 vezes.

Foi então que decidimos voltar para o interior - onde aluguel e custo de vida eram menores - para ver o que fazer da vida. Minha idéia era ser freelancer para as agências de São Paulo, mas morar no interior. Não achava que isso daria certo, mas resolvemos tentar já que tinha um ano de renda garantida com os acertos ganhos na justiça.

Alugamos uma casa no interior e para trabalhar assim precisava de um computador com internet. Comprei um. Por uma benção dos céus, um milagre ou sei lá o que, entrei em contato com agências de São Paulo e comecei a pegar muitos textos para fazer como freelancer. Fazia em casa, mandava por e-mail, no final do mês mandava a fatura, as agências pagavam e boa. Tudo certo, tudo acomodado como antes.

É..tudo certo até que um dia bateu uma curiosidade danada de entrar num chat do Uol...nunca tinha mexido nisso. Pra falar a verdade tinha até um pouco de medo. Instintivamente coloquei um nome masculino e as mulheres começaram a puxar conversa. Aquilo foi me encantando, pois ali, naquele universo virtual eu finalmente podia ser um homem. Esse exercício de masculinidade estava me fazendo bem, mas ao mesmo tempo mexendo com minha cabeça. Um terremoto em minha vidinha acomodada e sem paixão. Até que uma noite. Uma noite de dezembro do ano 2000, encontrei na internet uma mulher que me virou pelo avesso de maneira avassaladora.

Ela vivendo um casamento ruído e eu apavorado e alucinado de paixão. Ela achando que estava falando com um homem. E eu me sentindo mais homem do que nunca. Noites e noites de conversas, confidências, entrega...e do mesmo jeito que acontecia na minha infância, na maior parte do tempo nem lembrava de minha condição. Mas quando lembrava sabia que, mais dia menos dia, perderia tudo aquilo. Só que as coisas foram fugindo do controle e, em meio aquele romance virtual, ela teve coragem de se separar do marido.

Eu estava enlouquecido de paixão e de vontade de viver aquele amor de verdade. Um amor de homem e mulher. Comecei a questionar minha condição e fui pesquisar na internet. Comecei a encontrar relatos de casos iguais ao meu. E ver que existia sim uma saída. Pesquisei, estudei, ponderei e, finalmente, tomei coragem pra começar a terapia hormonal. Isso foi em 2001.

Vivi minha transformação. Cada conquista era um desafio aparentemente insuperável. Durante um tempo tive que ser 2 pessoas para poder viver e dar seguimento à transição. Até que não podia mais aparecer nas agências onde prestava serviço por causa da mudança em minha aparência e, mais uma vez, fiquei sem dinheiro. Enfrentando uma situação desesperadora.

No meio disso tudo consegui me operar. Consultei-me com a Dra. Tereza Vieira e a Dra. Dorina Epps, e ainda fui a luta para ter de volta o amor da minha vida (imaginem a barra de ter que contar tudo, depois de mais de 1 ano num relacionamento virtual...).

Foi difícil, foi dolorido, foi sofrido, foi desesperador.

Mas em 2004 voltei para São Paulo e, já como uma outra pessoa, comecei do zero procurando emprego em outras agências. Procurei e consegui! Conquistei minha mulher novamente e hoje, depois de 5 anos da minha volta para São Paulo, sou diretor de uma grande empresa, casado, feliz e vivendo uma vida apaixonada.

Ainda tenho muita luta pela frente. Mas quando olho para trás quase não consigo acreditar. Aquele sonho impossível da infância, aquele futuro improvável chegou. Aconteceu. Hoje eu sou um homem de verdade. E se eu tivesse que resumir em uma palavra uma mensagem para você que está aí agora, sem saber para onde ir ou o que fazer, a palavra seria ACREDITE.

Porque tudo é possível, sim!

terça-feira, 30 de março de 2010

Histórias de Vida X - Sim, tudo é possível por Ultraman


Até os 35 anos minha vida foi um quebra cabeças de peças desconexas. E depois disso, a maneira com que essas peças se encaixaram...juro que se não tivesse acontecido comigo, se alguém me contasse, eu não acreditaria.

As lembranças dessa história vêm de muito tempo, pois desde os 2 anos tudo o que acontecia comigo e à minha volta está guardado de maneira bem clara e lógica na memória.

A infância toda, com raras exceções, eu praticamente não me dava conta de que não era menino. Sentia-me menino, me vestia como menino, brincava feito menino e, por minha sorte, podia compartilhar tudo isso com minha melhor amiga, vizinha de rua, que era igual a mim. Maria Alice, o nome dela. Lice, como era costume abreviar os nomes no interior de São Paulo.

Graças a Deus, nunca houve qualquer tipo de repressão por parte das famílias. Nem da minha e nem da Lice.

Podíamos cortar o cabelo curto, podíamos usar shorts e camisetas, jogar bola com os meninos, subir em árvore, brincar de revólver. Realmente, nem precisava parar para pensar que não éramos iguais aos outros meninos. Mas às vezes parávamos. E nessas vezes lembro que em nossas conversas de criança, cheias de fantasia, falávamos de um futuro tipo Jetsons, onde entraríamos numa cápsula e poderíamos "virar homens".

Falava isso também com minha mãe que só ria e afirmava que isso era impossível.

Uma infância boa, que começou a desmoronar, quando apareceram os seios. Os da Lice vieram antes. Nunca nem comentamos entre nós esse fato. Nos limitávamos a tentar esconder ao máximo aquilo, usando camisetas e mais camisetas por baixo da blusa. No meio disso tudo veio o fim do primário e as cobranças na escola: "porque vocês não usam sutiã????" Resistimos bravamente até que as cobranças foram ficando insuportáveis. Primeiro foi a Lice e depois eu a experimentar a sensação humilhante de colocar um sutiã.

Pior que essa sensação, só a menstruação. Chorei por 5 dias seguidos e, pela primeira vez na vida, senti uma vontade profunda e legítima de morrer. Mas as coisas se acomodam e, no final das contas, ainda passava os meus dias quase que sem lembrar que não era homem. A realidade só me atingia como um soco no estômago, nas vezes em que ouvia alguém comentando "lá vai a mulher-macho". Cada insinuação, cada ocorrência era humilhante. Nunca me senti homossexual, mas como explicar isso se nem eu mesmo entendia.

Na juventude e na hora de começar a trabalhar decidi que mudararia aquela situação, que ninguém mais me chamaria de sapatão.

Por algum tempo e em vários momentos da minha vida, me forcei a vestir roupa de mulher e tentar me comportar como mulher. Foi assim quando entrei na faculdade, foi assim quando fui arrumar meu primeiro emprego. Mas todas às vezes a tentativa era em vão. Eu simplesmente não conseguia me manter por muito tempo naquelas roupas e nem naquela atitude. Sem perceber, eu já era a mulher-macho novamente. Sabia que todo mundo notava, mas tinha pânico de pensar nisso. Tinha pânico de arrastar esse rótulo vida afora.

Fui levando assim, até me envolver com uma mulher que se apaixonou por mim, mas logo passou a me evitar. A cabeça dela deu um nó. Primeiro porque não entendia o fato de gostar de mim, já que ela não era homossexual. Depois foi porque esse nosso romance virou um escândalo na cidade pequena do interior, num tempo em que ser gay era a vergonha máxima para uma pessoa e sua família.

Nos distanciamos até que, 4 anos mais tarde, voltamos a nos encontrar já morando em São Paulo. Nessa época eu já estava formado em comunicação e estava trabalhando em uma grande agência de propaganda de Sampa, como redator júnior.

Para não entrar em detalhes que tornariam esse depoimento muito longo, vou contar em poucas linhas, que vivi 15 anos com essa mulher. Mas um relacionamento que não nos satisfazia. Ela porque não aceitava estar casada com um sapatão e não permitia que tivéssemos uma vida sexual. Eu porque queria ter uma vida sexual.

Mas enfim, a situação acabou tornado-se cômoda para as duas partes e fomos tocando assim. Achei que minha vida tinha se resumido a isso: engordar, trabalhar e viver com uma amiga. Achei que era o melhor que podia acontecer para alguém nas minhas condições e fui remando.

Remei, remei, até que minha vida profissional (até então estável) começou a afundar. A agência onde trabalhava começou a entrar em crise e foi minguando, minguando, até não ter mais como pagar os funcionários. Agarrei - me naquele barco furado, pois morria de medo de ter que enfrentar o mercado de trabalho. Sabia que minha aparência era um obstáculo.

O resumo da ópera é que a agência quebrou e estávamos sem nenhum tostão. Comecei a fazer freelancer enquanto procurava outro trabalho. Não encontrava emprego, não tinha como pagar aluguel e tive que entregar meu carro para o banco... não tinha nem como pagar o supermercado. Minha mulher, ou amiga, também estava sem emprego.

Continua...

Filho de Cher quer mudar sexo nos documentos



Chaz Bono aguarda decisão da Justiça da Califórnia nas próximas semanas

Por Redação
Publicado em 29/03/2010 às 18:01

Chastity agora deve ser chamado de Chaz

Chaz Bono, filho da cantora Cher, entrou com um pedido na Justiça para mudar seu nome e sexo nos documentos.

Chaz nasceu Chastity e, no ano passado, submeteu-se a uma cirurgia de redesignação sexual. O filho de Cher aguarda que a Suprema Corte da Califórnia atenda seu caso nas próximas semanas.

Em dezembro, Chaz foi a um programa de televisão falar sobre a sua transexualidade e declarou à época que “o gênero está entre as orelhas, e não entre as pernas”.

Fonte: http://dykerama.uol.com.br/src/?mI=5&cID=23&iID=3022&nome=Filho_de_Cher_quer_mudar_sexo_nos_documentos

segunda-feira, 29 de março de 2010

Grupo Terapêutico para Transgêneros no Rio de Janeiro.


Repassando:

"Os conflitos e dificuldades vivenciados pelos transexuais (pessoais, familiares, sociais...) os levam muitas das vezes, a percorrerem caminhos que proporcionam a um distanciamento de si mesmo e do mundo. O grupo tem como objetivo proporcionar uma melhor compreensão e uma relação intima saudável. A aplicação da programação terapêutica no grupo se faz através das partilhas, vivências, palestras, filmes e informações para melhor direcionamento de metas e objetivos.

Um trabalho da Psicóloga Vilma S. P. Silva
CRP: 05-25467

Data: 20/04/2010 às 15hs.
Informações: (21)3783-1823/ cel: (21)8515-0391
E-mail: Vilma_spc@hotmail.com
"

Fonte: Por email da Dra. Vilma, cuja indicação consta das listagens de profissionais.

domingo, 28 de março de 2010

Entrevista de João Nery na TV Cultura.

Para quem não viu por não ter a TV Cultura ou simplesmente porque perdeu, seguem as duas partes da entrevista com João Nery, o primeiro homem transexual brasileiro que se tem notícia, ao programa Provocações da última sexta feira, dia 22/03/10.





Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=BE3cp4sibNA e http://www.youtube.com/watch?v=L6OuRwgc_3U&feature=related , respectivamente.

Nome social no Bilhete Único paulistano.



Na última sexta feira, a militante Carla Machado, conseguiu retirar em posto da SPTrans o seu bilhete único, agora com seu nome social e sem menção alguma ao nome de registro.

Para quem não se lembra de post anterior, Carla foi alvo de constrangimento e preconceito por parte do gerente de um dos postos da SPTrans quando tentou solicitar que seu nome social constasse em seu bilhete único de transporte(http://acapa.virgula.uol.com.br/site/noticia.asp?codigo=10269).

Sem sucesso, dirigiu - se a outro posto, onde teve sua solicitação atendida.

Ainda assim, Carla deu entrada em um processo contra a administração do Metrô na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.

A solicitação de Carla se deu com base no decreto nº51.181/2010 de 14 de janeiro de 2010, que garante o uso do nome social em órgãos públicos da administração direta e indireta municipal, permitindo assim que transexuais e travestis escolham o nome pelo qual querem ser tratados na hora de preencher cadastros ou de um atendimento, entre outras possibilidades.

Por email, Carla delcara que "a sensação era inexplicável" e que "Queria ficar andando o resto do dia com aquele cartão pendurado no pescoço".

Ela comenta ainda que a SPTrans declarou que está pronta para atender a demanda que possa surgir à procura do uso do nome social.

Fica aqui então a informação de que é sim possível solicitar a alteração no bilhete único da SPTrans, mesmo sem ter retificado nome e gênero judicialmente. Pode parecer pouco para quem não tem noção da dificuldade de ter documentos em desacordo com seu físico, mas é, sem dúvida, uma vitória para aqueles que precisam provar todo dia que são quem dizem ser.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Nome social.

Para a Conferência Nacional de Educação, além de outras questões, a
ABGLT traz uma discussão pertinente aos meandros escolares, trata-se do nome social. A medida está em consonância com as recomendações da 1 Conferência Nacional da Educação Básica: “Diversidade Sexual... 3. rever e implementar diretrizes, legislações e medidas administrativas para os sistemas de ensino promoverem a cultura do reconhecimento da diversidade de gênero, identidade de gênero e orientação sexual no cotidiano escolar” (Documento Final, p. 41).

Diariamente, travestis e transexuais são constrangidas nas escolas por não poderem ser chamadas pelos nomes com os quais se identificam, isso quando não acabam deixando o ambiente escolar devido às ofensas as quais são submetidas.

Conheça alguns locais que já adotaram o uso do nome social nos registros escolares e em outros órgãos da administração pública:

LEGISLAÇÃO – NOME SOCIAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS

DECRETO N°. 3.902, DE 23 DE JANEIRO DE 2009. (S. JOÃO DEL REI – MG)

LEI ORDINÁRIA Nº 5.916 DE 10 DE NOVEMBRO DE 2009 (PIAUÍ)

PORTARIA Nº 438/2009GSEAS (AMAZONAS)

DECRETO Nº 1.675, DE 21 DE MAIO DE 2009 (PARÁ)

PORTARIA N.º 26/09, DE 03 DE FEVEREIRO DE 2009 (PIAUÍ)

DECRETO Nº 51.180, DE 14 DE JANEIRO DE 2010 (SÃO PAULO – SP)

PORTARIA N° 41/2009 – GS (PARAÍBA)

LEI Nº. 5.992 DE 28 DE OUTUBRO DE 2009 (NATAL – RN)

PORTARIA Nº 220 DE 27 DE NOVEMBRO DE 2009 (BAHIA)

PORTARIA Nº. 016/2008 - GS (PARÁ)

PARECER Nº 277 DE 11/08/2009 (SANTA CATARINA)

PARECER Nº 04/2009 CEE (GOIÁS)

RESOLUÇÃO CEE/CP N. 5 ,DE DE 3 DE ABRIL DE 2009 (GOIÁS)

RESOLUÇÃO CME/BH Nº 002/2008 (BELO HORIZONTE – MG)

OFÍCIO 731/2009-CG-SEDUC (MARANHÃO)

RESOLUÇÃO SESA Nº 188/2010 (PARANÁ)

PORTARIA Nº 1.820, DE 13 DE AGOSTO DE 2009 (MINISTÉRIO DA SAÚDE)

RESOLUÇÃO CREMESP Nº. 208, DE 27 DE OUTUBRO DE 2009 (SÃO PAULO)

PARECER N°. 010/2009 CEE, DE 27 DE JULHO DE 2009 (MATO GROSSO)

DECRETO nº 55.588 DE 17 DE MARÇO DE 2010 (Estado de São Paulo)

Fonte: Jornal informativo da ABGLT, distribuido na I Conferência Nacional de Educação (http://conae.mec.gov.br/) repassado por email pelo colaborador Leonardo.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Corpo estranho.

Em 1977, João Nery foi pioneiro ao se tornar a primeira mulher do Brasil a mudar de sexo

15.12.2009 Texto por Millos Kaiser Fotos Rafael Salim

Se Peter Drouyn, que você conheceu na reportagem "Transurfer", foi o primeiro transexual do surf, João W. Nery também é um pioneiro. Em 1977, tornou-se a primeira mulher do Brasil a mudar de sexo. Mais de 30 anos depois, ele conta como é a vida de quem é estrangeiro do próprio corpo

Eu devia ter uns 7, 8 anos. Tinha achado muito estranho aquele homem com várias cicatrizes no peito, amigo dos meus pais, que tentava puxar papo comigo na praia.
– Mãe, não gostei do João. Ele é esquisito.

Ela estava dirigindo o carro e desconversou, mas sabe como é: criança quando encasqueta com algo, encasqueta mesmo. E eu, sem imaginar a bomba que viria, insisti.
– Filho, o João nasceu mulher e virou homem.

Meu mundo caiu. Descobrir que a Vovó Mafalda era homem já havia sido traumático o suficiente. Eu havia conhecido um caso real, na minha frente, com a transformação marcada na pele e não por uma fantasia. Fiquei dias com aquilo na cabeça. Hoje, 15 anos depois, com os horizontes (espero) mais amplos, reencontro João em sua casa. Desta vez, sua figura me é completamente normal e a primeira impressão que tenho é que minha mãe estava enganada: João não nasceu mulher e quis virar homem. Nada disso. João nasceu homem, mas preso num corpo de mulher.

João foi o primeiro caso de transexualismo feminino a se ter notícia no Brasil, vindo a público em 1985, ano em que lançou o livro Erro de pessoa. Estamos falando aqui da minoria da minoria: um transexual que mudou seu corpo de mulher para homem – processo muito mais raro, complicado e precário do que o inverso. A cabeça já nasceu pronta, mas fisicamente falando Joana virou João W. Nery de vez aos 27 anos, em 1977, 20 anos antes de esse tipo de cirurgia ser legalizada no país.

Se fosse hoje, João não precisaria fazer tudo por baixo dos panos como fez. Poderia pagar cerca de R$10 mil e operar-se numa clínica particular, ou recorrer a um dos cinco hospitais universitários do país que operam pelo SUS (Sistema Único de Saúde), caso suportasse toda a burocracia e espera envolvida nessa opção (desde a implantação do programa, em 1998, pouco mais de 20 pacientes foram operados). Mas, de um jeito ou de outro, João continuaria sendo um criminoso.

O descompasso é tipicamente brasileiro: mudar o sexo do corpo é legal; do RG e demais documentos, não. Quem não tem o prestígio de uma Roberta Close tem que entrar na Justiça ou então fazer uma nova certidão de nascimento e, a partir dela, tirar novos documentos – é o que João fez, e o que o artigo 307 da Constituição considera crime de falsa identidade. Nosso “criminoso” nunca foi descoberto, mas para virar homem no papel também teve que matar Joana e enterrar com ela todas as suas conquistas, como o diploma de psicologia que nunca mais pôde usar.

“Monstruação”

João teve vários nomes durante a vida. O primeiro deles, Maria-João, ganhou na pracinha onde brincava, em frente à casa onde morava com os pais e as três irmãs, na zona sul do Rio de Janeiro. Ele não entendia, assim como não entendia por que não podia andar sem camisa como o pai. “Virar mocinha” soava como uma sentença de morte. Quando a “monstruação” veio, João não se permitia sentir cólica ou TPM, surrava os seios e forçava a corcunda para ver se escondia os “apêndices”. Era o começo de sua batalha contra o próprio corpo, travada até hoje.

Para não enlouquecer, descobriu que teria que mergulhar de cabeça em alguma coisa. E foi o que fez, literalmente, tornando-se campeão nacional de salto ornamental aos 16 anos. Os treinos constantes deixavam João com uma compleição mais masculina, e as 30 medalhas conquistadas trouxeram autoconfiança. Outro suporte veio dos papos que tinha com um amigo de seu pai, na época exilado político no Uruguai. Era o antropólogo Darcy Ribeiro, que, sem filhos, adotou o jovem em crise que frequentava sua casa para desabafar e fumar escondido. João considera Darcy seu mentor intelectual, quem lhe mostrou um jeito de habitar um mundo que não o compreendia: “Ou você fica rico para calar a boca das pessoas ou vira um intelectual”.

Como quase tudo na vida de João, namorar não era fácil. Primeiro, precisava certificar-se que a menina enxergava-o como homem, apesar do visual unissex não ajudar. Depois vinha a parte mais complicada: o sexo. A lua de mel com a primeira esposa foi um desastre. João ainda não havia descoberto as maravilhas que sua mão esquerda poderia fazer, principalmente se acompanhada de bastante imaginação da parte de ambos. Além disso, era preciso sempre explicar o modus operandi de seu corpo para a parceira. João não gostava que tocassem em seus seios ou sexo, pois isso o lembrava de sua condição non grata. “É preciso ser muito homem para chegar ao orgasmo só com a força da mente”, orgulha-se.

Zero pau

Assim que soube que um grupo de médicos em São Paulo estava operando transexuais, ainda em caráter experimental, João transformou isso em seu objetivo de vida: “Não tinha medo de porra nenhuma, só de morrer como mulher. Era enlouquecedor”. Antes, porém, teria que ser avaliado por um psicólogo e um psiquiatra por um ano, e sujeitar-se a uma batelada de exames. Tudo na surdina. A esposa da época, a segunda de João, deu força, enquanto a maioria da família insistia na tecla do “onde foi que eu errei?”.

João foi operado pelas mãos do Dr. Roberto Farina, renomado cirurgião plástico, que cinco anos antes havia transformado o primeiro homem em mulher do Brasil, sendo inclusive preso por lesões corporais por isso. O “pacote homem” incluía a retirada das mamas, útero (adeus, “monstruação”), um forte tratamento hormonal à base de testosterona e… é isso. Não, João não ganhou um pênis para chamar de seu. A verdade é que pouquíssimos transexuais femininos ganham um. “É muito sofrimento para pouco resultado.” Leia-se: uma prótese feia, que não ejacula, sem sensibilidade e que fica semiereta o tempo todo. Fora o pior dos castigos, que é deixar de alcançar o orgasmo.

Mas para João é com zero pau que se constrói um homem: “O que é ser macho? É ter peru, mijar em pé? Eu já era homem anos antes da cirurgia. Há uma série de gente que perde o pênis em acidentes, problemas circulatórios, mas ninguém fala. É difícil encontrar uma prótese normal, de pênis flácido, por exemplo. Como ir à praia? De barraca armada? Você só acha prótese rosa, amarela, com vibrador. Tudo que você não deseja num pau”.

Puberdade tardia

“A minha adolescência começou aos 30. Foi quando nasceu barba, pelos no corpo, espinhas na cara. Uma maravilha. Adorava ficar sem camisa, apesar das marcas.” João deixou de ser oficialmente um psicólogo, mas clinicou clandestinamente por um tempo. Depois, trabalhou numa construtora e comandou uma estamparia. Está há 13 anos no quarto e mais longo casamento. Tem um filho. Se orgulha de ter feito “um homem feminino, no melhor sentido. Um cara sensível, carinhoso e gentil”. Lamenta só não poder mais dançar, o uso da testosterona a longo prazo lhe rendeu uma artrose no fêmur e um pinçamento na coluna.

Aos 60 anos, João já existe há mais tempo que Joana. Dos que o conhecem há menos tempo, são poucos os que sabem do seu passado, incluindo a sogra. Sobre a mania que temos de reduzir as coisas, ele desabafa: “Você nasce e morre dentro de caixas. Caixa da família, da escola, do casamento e depois vai para o caixão. Ponha o pé para fora disso e você já é estigmatizado. Tem que ter muita estrutura para segurar a peteca da marginalidade”.

Arrependimento? “Nem por um segundo”, João responde antes mesmo de a pergunta terminar. Para ele, a escolha era tão óbvia quanto respirar. O problema foi convencer o resto do mundo disso.


Fotos: 1ª - João atualmente; 2ª - Um ano antes da cirurgia; 3ª - Com a família (ele é o prim. da esq. para dir.); 4ª - Depois da cirurgia com uma amiga.

Programa Provocações da Tv Cultura entrevista o primeiro homem transexual brasileiro.


Amanhã, dia 26/03, às 22 horas, o programa Provocações da Tv Cultura, apresentado por Antônio Abujamra, entrevista João Nery, o primeiro homem transexual brasileiro, que se submeteu a cirurgias de readequação na década de 70 com o Dr. Roberto Farina. João fala sobre infância, família, amigos, transexualidade, preconceito e vida.

João tem um livro chamado Erro de Pessoa - Joana ou João, publicado em 1984 pela editora Record, onde conta sua jornada rumo a tão desejada masculinidade.

E para quem ficou curioso (a), o próximo post apresenta um reportagem feita com João, ano passado, para a revista Trip.


NDAB: O programa de número 456, já está disponível para visualização no site do Provocações.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Saúde da população trans é tema de encontro em São Paulo


23/03/2010 - 17h47

Por : Hélio Filho

Especialistas se reúnem na capital paulista para discutir saúde de transexuais e travestis Ativistas trans, pesquisadores, médicos e advogados estarão reunidos em São Paulo entre os próximos dias 24 e 25, quarta e quinta-feira, para debater sobre os direitos, em especial à saúde, de travestis, transexuais e intersexuais no seminário “Transexualidade, Travestilidade e Direito à Saúde”.

Iniciativa da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), o encontro pretende discutir ainda a inserção e o papel dessas populações na sociedade atual. Serão debatidos ainda os exemplos positivos no Brasil, como a criação de serviços públicos de saúde específicos e leis que permitem à população trans a utilização do nome social.

Participam do evento militantes da causa trans do Brasil, Argentina e Venezuela e especialistas em saúde e diversidade sexual, além de representantes do governo. O evento conta com o apoio do Ministério da Saúde e será realizado no Centro Universitário Maria Antônia, na Rua Maria Antônia, 294 - Salão Nobre, 3° andar - Vila Buarque. Mais informações pelo telefone (11) 5575-7372

Fonte: http://mixbrasil.uol.com.br/pride/saude/saude-da-populacao-trans-e-tema-de-encontro-em-sao-paulo.html

terça-feira, 23 de março de 2010

Doutoranda procura homens trans que estejam interessados em colaborar com tese.



Repassando:

"Olá, pessoal do FTMBrasil

Gostaria primeiramente de me apresentar. Sou aluna do Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades (NIGS) da UFSC (
http://www.nigs.ufsc.br/). Minha orientadora é a profa. dra.Miriam Pillar Grossi.

Minha tese é sobre a produção da masculinidade na transexperiência masculina (FTM). Entro em contato com vcs para ver a possibilidade de entrar em contato com FTMs brasileiros para convidá-los a participar do meu estudo. Desde ja, gostaria de informar que a identidade dos participantes será preservada; em nenhum momento será revelada a identidade dos mesmos.

Já estou em contato com um trans do Rio Grande do Sul e outro do Paraná. Se tiverem interesse em conhecer os detalhes da minha pesquisa, terei o maior prazer em informá-los.

Desde já agradeço a atenção!

Um abraço

Simone Ávila
"

Para entrar em contato basta enviar email para simoneavila10@brturbo.com.br

Fonte: Grupo Yahoo FTM Brasil, por email.

Cerca de 1/3 dos homens xy precisam de reposição hormonal.

Em média duas vezes por mês você vai a farmácia para comprar seu hormônio, e se pergunta: "Por que isso acontece comigo?! Vou ter que tomar isso o resto da vida, queria ser "normal"...".

É fato consumado que mulheres fazem reposição hormonal, mas poucos sabem que os homens, sim os biológicos, muitas vezes também precisam fazer essa reposição, no caso com hormônio masculino. A maioria sequer sabe o que é testosterona, e muitos médicos não levam em conta a reposição hormonal masculina quando o paciente chega ao consultório com queixas variadas, sendo a mais comum a diminuição do desejo sexual.

Resumo da ópera: viva mais e com menos "nóia", não é só você que precisa tomar testosterona; homens biológicos também precisam, pelos motivos dos mais variados, e dependendo do caso, também será para o resto da vida.

Vale ainda como boa desculpa quando perguntarem por que você tem cara de quatorze anos, entre outras perguntas indiscretas e curiosas.




Fonte:
http://mais.uol.com.br/view/99at89ajv6h1/homens-13-sofre-com-a-diminuicao-de-testosterona-0402983270CCB17326?types=A&

Grupo de apoio a transexuais em Campinas


As psicólogas Bárbara Dalcanale Menezes e Maria Angélica Fonseca Soares realizam na cidade de Campinas encontros de apoio a transexuais, tanto mtfs quanto ftms. Seus respectivos familiares e / ou companheiras(os), também são bem-vindos. Não é psicoterapia, são encontros para discussão de assuntos, troca de idéias e suporte mútuo.

Os encontros são gratuitos e se realizam um vez por mês, no sábado à partir das 15hs. Quem quiser participar basta ligar para o Centro de Referência GLTTB de Campinas no telefone (19) 3242-7744 e confirmar endereço e presença com a Dra. Bárbara.

Segue abaixo as datas de 2010:

01/05 - 05/06 - 03/07 - 07/08 - 04/09 - 02/10 - 13/11 e 18/12 (confraternização). Em abril não haverá encontro.

Hein ?! Homem muda de sexo para fugir de cobradores


Sujeito inglês devia cerca de R$ 135 mil e tomou medida desesperada.

Publicado em 22/03/2010 às 09h34:

Um homem, cuja identidade não foi revelada, devia tanto dinheiro que resolveu mudar totalmente de identidade.

A mudança foi tão radical que agora ele se tornou mulher.

A história foi descoberta pela atriz britânica Sarah Thom durante pesquisa para um peça de teatro.

Ela conversou com trabalhadores de um sindicato de funcionário de empresas de crédito que confirmaram o bizarro caso.

O sujeito morava em West Midlands, na Inglaterra, e resolveu mudar de sexo para fugir dos cobradores.

A cirurgia foi bem sucedida, mas o plano não deu muito certo.

Ele, que virou ela, foi descoberto - descoberta - e agora está tendo de pagar cerca de R$ 135 mil em dívidas.

Outra história curiosa, para não dizer trágica, descoberta pela atriz foi a do dono de uma loja de 1,99 que precisou fechar as portas porque um cliente insistia em receber seu um centavo de troco.

Fonte: http://noticias.r7.com/esquisitices/noticias/homem-muda-de-sexo-para-fugir-de-cobradores-20100322.html

domingo, 21 de março de 2010

Chopelly definitivamente é mulher.

Depoimento de Chopelly, uma mulher transexual, que foi ao ar ontem, sábado dia 20 de março, após o capítulo da novela Viver a Vida. Seguindo a tônica dos depoimentos apresentados, Chopelly é a terceira mulher transexual a partilhar sua história de superação e vitória.



Fonte: http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM1233257-7822-CHOPELLY+DEFINITIVAMENTE+E+MULHER,00.html

Terças Trans Especial dias 23 e 31 de março.


Repassando:

"Olá pessoal,

Mudando os planos, receberemos a visita ilustre da ex-deputada Iara Bernardi no CRD, hoje representante do Ministério da Educação em São Paulo, que é a responsável pela redação do Projeto de Lei que criminaliza a Homofobia no Brasil e uma grande parceira da causa LGBT e não podíamos perder a oportunidade de trocar uma idéia com ela. Por isso, a convidamos para ficar conosco num Terças Trans Especial, que acontecerá neste dia 23 de Março, no horário antigo, de 19h às 21h, no Centro de Referência da Diversidade.

E dando continuidade a nossa atividade programada, como tínhamos previsto, teremos mais um Terças Trans Especial, dia 30 de março, com o Dr. Daniel Simon, da Clinica Espanhola AGAVE, falando sobre Cirurgia Plástica Facial e outras mais!!!

IMPERDÍVEIS!!!!!

Anotem então:

TERÇAS TRANS ESPECIAL - DOSE DUPLA!!!

Dia 23 de março das 19 às 21h.
EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE
Com a presença de Iara Bernardi
Centro de Referência da Diversidade
Rua Major Sertório, 292/294-Centro
Metrô República

Dia 30 de março das 18h às 20h.
CIRURGIA PLÁSTICA FACIAL
Com a presença do Dr. Daniel Simon
Centro de Referência da Diversidade

CASO HAJA ALTERAÇÕES NA PROGRAMAÇÃO, AVISARE POR EMAIL!!

Aguardo a presença de vocês, prestigiem!!

Coordenação: Alessandra Saraiva
Organização: Associação da Parada GLBT de São Paulo e Centro de Referencia da Diversidade
"

sexta-feira, 19 de março de 2010

Estado de São Paulo ganha decretos a favor da população homossexual



18/03/2010 - 16h40

Por : Irving Alves

José Serra assina três decretos que facilitam a vida da comunidade LGBT de São Paulo

A comunidade LGBT de São Paulo recebeu algumas boas notícias nesta quarta-feira, 17. É que o governador do Estado, José Serra (foto), publicou três decretos que favorecem a população homossexual. Um deles institui o Conselho Estadual dos Direitos da População de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Antiga reivindicação da militância paulista, o conselho terá como objetivo principal ajudar na elaboração e fiscalizar a implantação de políticas públicas específicas para o segmento.

Além disso, fica atribuído ao órgão o recebimento de denúncias que envolvam fatos discriminatórios contra homossexuais e propor campanhas que promovam a diversidade sexual e combate à homofobia.

Outro decreto já publicado no Diário Oficial de São Paulo diz respeito ao nome social de travestis e transexuais. O texto determina que órgãos da administração estadual direta e indireta dêem a essa fatia da população o direito de escolher o nome pelo qual quer ser tratado na hora de preencher cadastros ou se apresentar para atendimento. Com essa resolução, São Paulo junta-se a Estados como Bahia e Maranhã, que já têm determinações parecidas.

Já o decreto de número 55.589 trata das penalidades aplicadas a quem discrimina com base em orientação sexual. De acordo com o texto, o Secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania fica incumbido de formar uma comissão de 5 membros responsáveis por apurar os atos discriminatórios e aplicar penalidades previstas Lei nº 10.948, de 2001, que proíbe qualquer ação atentória contra o cidadão homossexual, bissexual ou transgênero. A intenção é agilizar os processos e a posterior penalização dos agressores.

Fonte: http://mixbrasil.uol.com.br/pride/seus-direitos/estado-de-sao-paulo-ganha-decretos-a-favor-da-populacao-homossexual.html

NDAB: Grifo Nosso.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Chaz Bono fala sobre sua cirurgia de adequação genital em programa da CNN

16/03/2010 - 11:52hs

O filho da cantora Cher e Sonny Bono, Chaz Bono, deu uma entrevista para o programa "AC 360º", apresentado por Anderson Cooper na CNN.

No programa, Chaz, que se chamava Chastity, contou por que decidiu passar por uma cirurgia de adequação genital. "Eu sempre senti que era diferente. Quando era pequeno, meus amigos eram todos garotos. Eu me sentia como eles. Quando a puberdade chega, isso fica realmente confuso. Naquela época, percebi que tinha atração física por mulheres, então era claro que era lésbica. Depois, você percebe que não era o caso, na verdade, era transexual", contou.

Depois de um ano da cirurgia, Chaz disse que está mais tranqüilo. "Foi uma viagem fantástica, foi algo que eu sempre quis fazer durante muito tempo. É difícil de explicar, porque é algo profundo".




Fonte: http://cenag.terra.com.br/noticias_ler.php?id=MTg0Mg== e http://www.towleroad.com/2010/03/watch-anderson-cooper-talks-to-chaz-bono-about-transition.html

Enquanto isso em Portugal...


Transexuais denunciam "regras preconceituosas" do Estado

Ontem

A Associação Panteras Rosa diz que o Estado português impõe "regras preconceituosas" no processo legal de mudança de nome e sexo nos documentos de identificação dos transexuais, criticando ainda a "postura de policiamento" exercida pelas autoridades.

"Nesta questão, o Estado não tem outra intervenção a não ser exercer um policiamento relativamente ao género a que a pessoa diz pertencer, e criar um processo que estica ao máximo as dificuldades burocráticas para, basicamente, tentar dissuadir as pessoas das suas intenções", acusou o porta-voz da associação, Sérgio Vitorino.

O porta-voz da Associação Panteras Rosa/Frente de Combate à LesbiGayTransFobia reagia, assim, ao alerta do comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa, Thomas Hammarberg, ao Governo português para a inexistência de um procedimento legal célere, que permita aos transexuais alterar o nome e género nos documentos de identificação, já depois da intervenção cirúrgica de mudança de sexo.

"A legislação portuguesa obriga as pessoas a submeterem-se a um processo médico que se prolonga por oito a 10 anos, forçando-as a vestirem-se e a comportarem-se de acordo com um género que não corresponde ao que vem inscrito nos documentos, nomeadamente no Cartão de Cidadão", diz Sérgio Vitorino, sublinhando que já depois da intervenção cirúrgica o processo legal prolonga-se "por mais um a dois anos".

O responsável condena ainda o Estado português por "obrigar" os transexuais a submeterem-se a uma confirmação médica da mudança cirúrgica, situação que classifica como "profundamente humilhante".

O porta-voz da Associação Panteras Rosa alerta ainda para a demora na alteração legal "criar situações de vida ou morte", além de originar descriminação e precariedade ao nível económico: "Ninguém emprega uma pessoa que aparenta ser homem ou mulher, mas cujos cartões de identificação indicam algo diferente".

"A legislação existente mostra que o Estado considera que as pessoas não devem mudar de sexo", concluiu.

No documento enviado para Portugal, além de manifestar preocupação pela falta de um procedimento legal "rápido" que permita aos transexuais mudarem de nome e de sexo nos documentos de identificação, Thomas Hammarberg desafia igualmente as autoridades nacionais a encontrarem soluções com base no documento sobre os direitos humanos e identidade de género, publicado em Julho passado.

Fonte: http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=1520559

terça-feira, 16 de março de 2010

Artigos que contribuem para reflexão.


Repassando:

"Olá,

Como sugestão, indico a leitura dos artigos abaixo que foram publicados na revista Mente & Cérebro Especial, n.º 22 (que está nas bancas), que relação direta/indireta com o tema do blog M2F (
NDAB: válidos para F2M também) :

ANDRÉ, Christophe. Questão de autoestima - A forma como nos vermos se reflete nos relacionamentos afetivos e sociais. Pesquisadores acreditam que mais importante que ter uma boa autoimagem é mantê-la estável.

DUNNING, David; SULS, Chip Heath Jerry et NATALIE, Kathia. Reflexos distorcidos - Superestimar capacidades pessoais é uma forma de autoproteção, mas em alguns casos pode comprometer tanto a saúde física quanto a vida profissional.

NATALIE, Kathia - Diante do espelho - A insatisfação com o próprio corpo aflige grande parte dos brasileiros. O problema, porém, não são os supostos defeitos, mas a imagem, nem sempre fiel, que se tem de si.

BAUMEISTER, Roy F. et all. Mitos do amor-próprio - Autoestima elevada não é sinônimo de felicidade; pesquisas comprovam que o esforço para melhorar a forma de nos vermos tem poucos resultados.

HÜLSHOFF, Thomas - Benefícios da raiva - "Ora, não se irrite!" Pois é, falar é fácil... mas, na hora do descontrole, quem consegue seguir esse conselho? As explosões, porém, não são totalmente nocivas: têm utilidade, basta aprender a lidar com elas.

FLORACK, Arnd; SCARABIS, Martin - Perigodos preconceitos - Amplamente disseminados, os pensamentos preconcebidos em relação a pessoas e culturas causam imensos danos sociais; uma postura crítica, entretanto, ajuda a aguçar nossa inteligência, rever opiniões e afastar o medo daquilo que incomoda apenas porque é diferente de nós.

Glória Souza
"

Fonte: Por email, enviado por Glória.

NDAB: Glória é uma colaboradora deste blog e tem um grupo no Ning para mulheres transexuais. Vale a conferida. Segue o link para o grupo: M2F Transexual Club - grupo social sobre Síndrome de Benjamin - http://m2ftransexualclub.ning.com/

Austrália reconhece 1ª pessoa de "gênero não-específico" do mundo


Por Redação
15.03.10

Norrie May-Welby tornou-se a primeira pessoa do mundo que se tem conhecimento a ser reconhecida oficialmente como não pertencente a nenhum dos dois gêneros.

O caso aconteceu na Austrália, onde o governo do Estado de New South Wales emitiu a Welby, que é ativista do grupo Sex and Gender Education (Sage), uma certidão de “Gênero Não-Específico”. As autoridades, assim, reconhecem sua pessoa como não sendo nem homem nem mulher.

Norrie May-Welby, hoje com 48 anos, é natural da Escócia. Em seu registro de nascimento constava como do sexo masculino. Quando tinha 23 anos submeteu-se a tratamentos hormonais e iniciou procedimentos médicos para cirurgia de redesignação sexual, mas decidiu interromper o processo, por insatisfação com os resultados, denominando-se desde então “neutro”. Em meio aos procedimentos para mudança de sexo, entretanto, obteve na Austrália, para onde se mudou, alteração em seus documentos para o sexo feminino.

O grupo no qual Welby milita, o Sage, luta pelos direitos de pessoas com identidades sexuais diferenciadas. “Esses conceitos de homem e mulher simplesmente não se encaixam no meu caso, eles não são a realidade e, se aplicados a mim, são fictícios", explicou Norrie, que luta há anos pelo reconhecimento agora concedido, ao site The Scavenger na semana passada.

Segundo a imprensa australiana, os médicos que examinaram Welby teriam concluído, em janeiro passado, ser impossível determinar seu sexo, quer seja fisicamente ou por seu comportamento. E um relatório da Comissão de Direitos Humanos da Austrália já tinha recomendado ao governo, no ano passado, a lhe conceder a certidão de gênero não-específico.

A decisão do governo de New South Wales foi comemorada por ativistas australianos e britânicos. Tracie O'Keefe, do grupo Sage, ressaltou a importância da vitória para todos aqueles que não se identificam com nenhum dos dois sexos. O porta-voz do grupo britânico Gender Trust também parabenizou o reconhecimento governamental.

Fonte: http://gonline.uol.com.br/site/arquivos/estatico/gnews/gnews_noticia_23510.htm

sexta-feira, 12 de março de 2010

Travestis e transexuais não se limitam à definição médica


Por Felipe Maeda Camargo - felipe.maeda.camargo@usp.br

Publicado em 4/março/2010

A partir de estudo feito com travestis e transexuais, o antropólogo Bruno Cesar Barbosa concluiu que pessoas que praticam transformações de gênero utilizam uma diversidade de categorias em seu cotidiano. Segundo o pesquisador, elas utilizam uma série de categorias para definição do que são, das categorias travesti e transexual, até outras como trans e transex, ou categorias ligadas à homossexualidade como gay e homossexual.

Pesquisador defende que transexuais e travestis são construções sociaisO autor defende que estas categorias são construções sociais. No entanto, as definições médicas, baseadas em manuais internacionais e em organizações internacionais como a Organização Mundial de Saúde (OMS), encontram maior legitimidade no uso cotidiano destas pessoas para definirem suas vivências. Segundo estas definições médicas, uma/um travesti seria aquele (a) que se comporta e se veste como o outro gênero, mas não quer a cirurgia para mudar seu órgão sexual. Já os/as transexuais, sentem a necessidade de fazer a cirurgia, pois se sentem do outro gênero desde o nascimento

“A operação é recorrente na fala e é um elemento central na produção das diferenças entre travestis e transexuais. Mas ela (a definição médica) pode ser contraposta por outros fatores” afirma Barbosa, que também ressalta a importância de elementos como diferenças de classe, cor e geração na construção da imagem das categorias travesti e transexual. Barbosa exemplifica dizendo que um dos típicos estereótipos criados e ligados às travestis é de que são pobres, negras, prostitutas e marginais; enquanto que as transexuais são ligadas as classes médias e altas, exemplificado pelo uso de termos “fina” e “educada” pelas pessoas pesquisadas, e são vistas como mais mulheres em relação as travestis.

Mesmo os médicos incorporam esses estereótipos ao associar a característica de “safadeza” às travestis, como Barbosa relata: “Se a pessoa é da prostituição, por exemplo, já pode ser um motivo para dizer que ela não é transexual, porque quer dizer que ela utiliza o órgão sexual dela para prazer. E “safadeza” pode virar também, neste sentido, um signo de masculinidade. A imagem de uma ‘mulher de verdade’ constrói o que é ser transexual para os médicos, assim como para muitas pessoas que se dizem transexuais”.

Em sua pesquisa, que foi defendida como sua dissertação pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o antropólogo observou que estas pessoas utilizam uma série de categorias que tem relação com as situações que elas vivenciam no cotidiano. Neste uso, tais pessoas não se prendem às definições médicas, mas também associam convenções de gênero, sexualidade, classe e raça.

Terças Trans

O pesquisador conciliou seus conhecimentos na sua área de estudo com o convívio por dois anos com transexuais e travestis em reuniões denominadas Terças Trans, que ocorrem quinzenalmente no Centro de Referência em Diversidade (CRD), um equipamento social direcionado para o grupo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) na cidade de São Paulo.

Nos encontros, Barbosa observou as interações e debates entre as participantes, além de coletar narrativas de história de vida de três delas. O pesquisador pôde estudar suas vivências de sexualidade e gênero e procurou compreender outras características das participantes que as faziam classificar a si mesmas como travesti ou transexual.

Barbosa notou que as pessoas não se fechavam ao conceito clínico das categorias. A categoria em que se encaixavam variava com a situação social que a pessoa vivenciou, ao mesmo tempo em que ela poderia se identificar diferentemente ao longo da sua vida.

Ele cita o caso de um dos participantes das reuniões, Carla*. Ela já se identificou de várias formas em sua vida: travesti, transexual, trans, performer, homossexual. Hoje ela diz que descobriu ser intersexo — termo usado para quem pode ter ambos os órgãos sexuais parcial ou completamente desenvolvidos. Barbosa destaca que, nos encontros, Carla conseguia se dizer transexual sem perder a legitimidade diante das outras.

O fato curioso dessa situação é que Carla não é operada, o que é considerado um fator importante para as participantes como a “prova da transexualidade”. Como Carla é branca, tem uma fala articulada, e tem um histórico de artista entre as participantes, sendo vista como um feminino “bem sucedido”, as outras não a viam como travesti.

Com casos como esse, o pesquisador percebeu que as próprias participantes traziam as imagens que a sociedade cria em torno das categorias ao se definirem e ao classificarem as outras participantes. Barbosa diz que nas relações entre elas há a construção de uma hierarquia de gênero, no qual transexuais são vista como “mais mulheres” em relação às travestis. Estas, por sua vez, acabam relacionadas a aspectos masculinos, que são moralmente rebaixados para algumas das participantes, como uma sexualidade exagerada e um feminino mal sucedido.

*Nome fictício

Mais informações: brunoicb@yahoo.com.br

Fonte: http://www.usp.br/agen/?p=18893 via http://associacaodastravestisetransexuaisrj.blogspot.com/2010/03/travestis-e-transexuais-nao-se-limitam.html

quinta-feira, 11 de março de 2010

Governo cubano volta a pagar por operações de mudança de sexo

10 de março de 2010 • 12h26 • atualizado às 12h27

Will Weissert

Da Associated Press, em Havana

Olhar no espelho costumava incomodar Yiliam Gonzalez. "Eu me via, e meu corpo não tinha nada a ver com a pessoa que sou", disse Gonzalez, 28 anos, uma pianista que toca em casamentos e costumava atender por William antes de realizar uma operação de mudança de sexo custeada pelo serviço nacional de saúde cubano.

Gonzalez serve como prova de uma pequena mas notável transformação na revolução rústica liderada por Fidel Castro, Che Guevara e um grupo de rebeldes barbados e sempre másculos, que costumava punir os gays e os transexuais mas agora custeia operações de mudança de sexo.

Com altura de 1,83 metro, cabelos loiros à altura dos ombros, maquiagem pesada e uma carteira de identidade que ainda porta seu nome masculino, Gonzalez passou pela cirurgia em 2008. Ela é um dos oito cubanos que se beneficiaram de um programa criado em 1988 mas suspenso por duas décadas depois que muita gente se queixou de que o governo comunista do país tinha coisas melhores em que gastar seu dinheiro.

As cirurgias foram retomadas, com o estímulo de Mariela, filha do presidente Raúl Castro e a principal defensora dos direitos dos homossexuais cubanos, e outros 22 transexuais estão na fila à espera de realizá-la.

Mariela Castro afirma que o governo está procedendo de modo cauteloso, realizando apenas algumas operações a cada ano. "Houve muita resistência, porque a homofobia continua a ser forte em nossa cultura", ela declarou em uma recente conferência sobre sexualidade.

Nos anos 60, a oposição ao homossexualismo era feroz em Cuba, e homossexuais eram demitidos de cargos públicos, aprisionados ou enviados a campos de trabalho. Muitos se exilaram. Os transexuais, embora não sejam homosexuais, eram tratados da mesma forma.

Embora as piadas sobre gays continuem a ser tão comuns quanto o café forte, em Cuba, campanhas de mídia do governo agora desencorajam a homofobia. Centenas de homossexuais cubanos marcharam pela elegante alameda La Rampa, em Havana, no segundo trimestre do ano passado, apenas um ano depois que as autoridades haviam proibido um desfile do orgulho gay.

"Gostaria de imaginar que a discriminação contra os homossexuais é um problema que está sendo superado", disse o ex-presidente Fidel Castro em uma série de entrevistas ao jornalista francês Ignario Ramonet, entre 2003 e 2005. "Os velhos preconceitos e a mentalidade estreita serão cada vez mais coisa do passado".

Mariela Castro se esforçou para que o Estado reconheça formalmente os transexuais. Professora infantil treinada e sexóloga diplomada, ela dirige o Centro Nacional de Educação Sexual, e dedicou anos a convencer os governantes comunistas a enfim suspender a proibição a cirurgias de mudança de sexo - ainda que a resolução jamais tenha sido divulgada em público, de forma a evitar atenção indesejada.

"Esses processos de negociações às vezes são conduzidos de forma muito discreta", disse Mariela Castro, "de modo a não despertar fantasmas". Ela diz agora que as preocupações financeiras do passado eram usadas simplesmente para ocultar preconceitos.

Não é incomum que isso aconteça, disse Denise Leclair, diretora executiva da Fundação Internacional para a Educação Sexual, de Washington. "Em muitos países, as pessoas se queixam seriamente disso. A questão é propelida principalmente por crenças religiosas", ela afirma.

As objeções religiosas não são problema em Cuba, país oficialmente ateu já há décadas. Em lugar disso, muitos cubanos alegam que os cofres públicos estavam vazios demais para bancar esse tipo de operação, em cartas enviadas ao editor-chefe do jornal do Partido Comunista, Granma, depois que a primeira cirurgia cubana de mudança de sexo bem sucedida foi anunciada, em 1988.

Leclair diz que uma cirurgia de mudança de sexo de masculino para feminino pode custar entre US$ 10 mil e US$ 25 mil nos Estados Unidos, mas que o preço pode ser até quatro vezes mais alto, a depender das opções escolhidas. Cerca de uma dezena de médicos realizam entre mil e duas mil cirurgias como essa a cada ano, nos Estados Unidos.

Canadá, Reino Unido, França e Brasil, entre outros países, oferecem cirurgias de mudança de sexo financiadas pelo governo.

San Francisco começou a pagar pelas cirurgias de mudança de sexo dos funcionários públicos municipais em 2001, e Fort Worth, Texas, está estudando a possibilidade de fazê-lo. Alguns grandes empregadores dos Estados Unidos, como a IBM e a Universidade da Califórnia, negociaram contratos com suas operadoras de planos de saúde a fim de cobrir o procedimento, conhecimento medicamente como "cirurgia de redesignação sexual", e outras empresas de seguro-saúde começaram a cobrir pelo menos parte do tratamento requerido.

Ainda assim, Leclair diz que a maior parte das grandes operadoras norte-americanas de planos de saúde não cobre esse tipo de tratamento. Cuba não revela o quanto custam as cirurgias de mudança de sexo, mas os médicos do país são funcionários do Estado e seu salário médio mensal é de cerca de US$ 20.

A despeito da recessão mundial, que atingiu Cuba de forma especialmente dura e levou Raúl Castro a anunciar cortes não especificados nos gastos com a saúde, a filha do presidente diz que o Estado não poderia deixar de executar as cirurgias.

Gonzalez diz que os oponentes da ideia "não fazem ideia de como sofre uma pessoa transexual. É uma prisão da qual é impossível sair".

Gonzalez sabia que era diferente quase desde o momento que nasceu. Aos quatro anos, já preferia roupas e brinquedos de menina, e seus pais a colocaram em terapia. O governo a designou oficialmente como transexual em 2000. Seis anos mais tarde, Mariela Castro conseguiu aprovação para a retomada das cirurgias, e Gonzalez esteve entre os primeiros beneficiários.

Dois especialistas da Bélgica executaram a operação, com, a ajuda de uma equipe de médicos cubanos, em um trabalho que durou oito horas. Gonzalez não quis revelar a data exata da operação ou os motivos para que tenha sido selecionada.

Leclair diz que 40% dos transexuais têm impulsos suicidas. Mas Gonzalez diz que namorado com quem vive há sete anos impediu que ela se deprimisse. "Ele sempre viu a mulher em mim e me aceitou como eu era", disse. "Mas não podíamos fazer sexo de maneira completa até agora".

Gonzalez não pode se casar, no entanto, porque ainda não recebeu permissão para mudar seu nome na carteira oficial de identidade. Até lá, também não poderá retomar seu trabalho como pianista em casamentos, embora deseje fazê-lo, e tampouco pode voltar a estudar, já que seu nome não serve à mulher que se tornou.

É um problema que a cubana Olivia Lam conhece muito bem. Ela nasceu Alfonso Manuel, e está esperando há dois anos por uma cirurgia de mudança de sexo.

Embora seu nome não tenha sido mudado, as autoridades permitiram que tirasse uma nova foto para sua carteira de identidade - e a foto a mostra vestida de mulher.

"A foto sou eu, ainda que o nome não seja", disse Lam, 43 anos, uma pessoa gregária que fala movendo os braços, o que faz com que os brincos sempre presentes em suas orelhas balancem alegremente.

As duas mulheres afirmam acreditar que a demora em mudar os documentos se deva à lentidão da burocracia cubana, e não a alguma forma de resistência de parte do governo.

Lam, que trabalha como cabeleireira em seu apartamento de dois quartos, começou a se vestir como mulher aos 21 anos. Embora esteja oficialmente classificada como transexual desde 2008, não sabe quando - ou se - a aprovação para a cirurgia de mudança de sexo será concedida.

E ainda que o governo agora a aceite, Lam reconheceu que conseguir que sua família faça o mesmo não foi nada fácil. "Não creio que meus pais desejassem que o filho deles fosse diferente", ela disse, "mas compreendem que uma pessoa não é assim porque quer".

AP - Copyright 2007 Associated Press. Todos os direitos reservados. Este material não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído.

Fonte: http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4312103-EI8140,00-Governo+cubano+volta+a+pagar+por+operacoes+de+mudanca+de+sexo.html#tarticle

quarta-feira, 10 de março de 2010

Militante da diversidade, cineasta Monika Treut apresenta retrospectiva de trabalhos em SP


10/03/2010 - 11h22

Por : Andre Fischer

Cineasta alemã apresenta conjunto de filmes sobre identidade de gênero

Começa nesta quarta-feira, 10, no CCBB de São Paulo, a mostra Monika Treut-Guerreira das Imagens.

Um dos ícones da produção independente alemã e da militância cinematográfica LGBT está em São Paulo para apresentar retrospectiva de seus filmes. Depois de bem sucedida mostra no CCBB do Rio de Janeiro, Monika Treut chega disposta a trocar impressões com o público, prática que realiza com plateias ao redor do mundo e que considera esponjas de ideias para novos trabalhos. “ È um processo rejuvenescedor” acredita a cineasta.

É a terceira vez que Treut vem ao Brasil. A primeira foi para apresentar Generonautas, documentário sobre homens transexuais que fez parte da programação do Festival MixBrasil em 1999 e teve grande repercussão ao mostrar pela primeira vez no país a realidade de mulheres que mudaram de sexo. Naquela visita conheceu o grupo Yvonne Bezerra de Mello, da ONG Uerê, tema de seu documentário Guerreira da Luz.

A maioria de seus filmes versa sobre a identidade de gênero e oferecem um olhar bastante peculiar sobretudo sobre lésbicas e transexuais em diversas culturas. “Acho que é pelo fato de ser alemã e por isso muito cerebral”, aposta. Seu próximo projeto no entanto passa longe da questão da discussão sobre gênero. Esse ano deve rodar um novo documentário a ser rodado em Taiwan, um road movie sobre a rica culinária local. Será o quarto trabalho no país, por cuja cultura se diz apaixonada.

Além disso prepara um livro sobre sua trajetória. “Não gosto muito da ideia, prefiro olhar para frente”.

Em conversa com MixBrasil, Monika disse que acredita que a comunidade lésbica daqui tem autoestima maior e é melhor inserida na sociedade do que na maioria dos países que já visitou. Exceção feita aos EUA e a sua Alemanha, onde elas ganharam visibilidade imensa nos últimos 10 anos por conta de figuras públicas que se assumiram e permitiram que as mulheres lésbicas tivessem modelos de comportamento.

Sobre o prefeito de Hamburgo Ole von Beus, afirma que apenas há pouco tempo decidiu participar da Parada Gay e apoiar a causa, apesar de ter se assumido homossexual no começo de seu primeiro mandato. A maioria dos filmes de Monika conta com financiamento do Fundo de Cinema da cidade-estado alemã, conhecida por seu animado Red Light District.

Entre suas novas paixões está a fotografia. “Não viajo mais com minha filmadora, pois me deixava muito preso. Estou aqui com minha câmera fotográfica que me dá mais liberdade”. Vamos esperar para ver como ela nos retrata.

Monika Treut – Guerreira das Imagens
10 a 21 de março sessões de 2ª a 6ª às 17h e 19h, sábados e domingos 14h, 16h e 18h
entrada franca CCBB SP (Rua Álvares Penteado, 112 - Centro de São Paulo)

Fonte: http://mixbrasil.uol.com.br/cultura-gls/militante-da-diversidade-cineasta-monika-treut-apresenta-retrospectiva-de-trabalhos-em-sp.html e http://www.youtube.com/watch?v=aPkeqCt6OR0

NAB: Grifo nosso.

Para maiores informações como horário e sinopses favor consultar http://www.bb.com.br/portalbb/page501,128,10163,0,0,1,1.bb?&codigoMenu=9899 .

Abaixo um "trailler" de Gendernauts.


terça-feira, 9 de março de 2010

Paraná: Governo aprova uso do nome social de travestis (e transexuais) nos serviços do setor da Saúde.


Saúde

08/03/2010 17:46

O secretário da Saúde, Gilberto Martin, assinou nesta segunda-feira (8) a resolução que determina o uso do “nome social” das pessoas travestis e transexuais em todos os registros relativos aos serviços públicos de saúde. A determinação vale para documentos como fichas de cadastro, formulários, prontuários, entre outros. Cerca de 100 pessoas, entre eles representantes de entidades ligadas ao movimento GLBT, do Conselho Estadual de Saúde e das regionais de saúde acompanharam a assinatura da resolução que deverá ser respeitada em todos os órgãos públicos da saúde no Estado.

“Fazer uma resolução, destinada a todos os serviços de saúde do Paraná, que assegura as travestis e transexuais o direito de se apresentar com o nome que elas próprias escolheram e que elas são conhecidas na comunidade é uma vitória. É o exercício da democracia. Esta é mais uma forma de mostrar que a Secretaria de Estado da Saúde respeita o cidadão paranaense, respeita a identidade de gênero. Queremos que o Paraná sirva de exemplo para o país”, afirmou o secretário Gilberto Martin.

“As travestis e transexuais representam uma parcela importante da população. Elas são vítimas corriqueiras de violência e tem dificuldade para acessar os serviços públicos de saúde e de educação. Com esta resolução, a situação tende a melhorar”, disse o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays Bissexuais, Travestis e Transexuais, Toni Reis.

A opção pelo nome social é uma reivindicação antiga do movimento social ligado a causa, pois pode ajudar a inibir o preconceito. Para Carla Amaral, representante do Transgrupo Marcela Prado, a resolução vem mostrar que o preconceito está diminuindo. “Sou a primeira transexual a ter identidade feminina reconhecida perante a justiça. Este reconhecimento foi algo que eu sempre quis e que outras travestis certamente vão conquistar também”, disse.

Atualmente 56 entidades representativas de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais trabalham em parceria com a Secretaria de Saúde, e têm representantes nos Conselhos Nacional e Estadual de Saúde.

DST/Aids – Nesta segunda-feira (8) também foram renovados 15 convênios entre a Secretaria da Saúde e organizações não-governamentais, para a realização de projetos que visam a redução das doenças sexualmente transmissíveis e da Aids.

“Esta é uma forma de homenagearmos o ex-secretário Cláudio Xavier, que faleceu na manhã desta segunda-feira (8). Ele foi um grande incentivador das mobilizações que levam amparo e informação as pessoas, trabalho este que é feito pelas entidades que aqui estão representadas”, disse o secretário Gilberto Martin.

O superintendente de vigilância em Saúde, José Lucio do Santos, formalizou os convênios que garantem o repasse de recursos as entidades. “É uma somatória de esforços para que minimizar os efeitos da epidemia de AIDS. Queremos consolidar as parcerias com entidades sérias e comprometidas, com as que aqui estão representadas. Tenho certeza que estes projetos, e os recursos destinados a eles, estão em boas mãos”, disse.

Veja a resolução na íntegra:

RESOLUÇÃO SESA N º 188/2010

O SECRETÁRIO DE ESTADO DA SAÚDE DO PARANÁ, no uso de suas atribuições conferidas pelo artigo 45, inciso XIV, da Lei Estadual nº 8485/87, de 03 de junho de 1987; Decreto Estadual nº 777 de 09 de maio de 2007 e Decreto Estadual nº 5711 de 23/05/2002 – Art.577 e,

Considerando o disposto no art. 5°, caput, da Constituição da República Federativa do Brasil, que dispõe que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, onde os direitos fundamentais à igualdade, à liberdade, à tolerância e à dignidade da pessoas humana são características inerentes ao Estado Democrático de Direito;

Considerando ainda a Portaria n° 675/GM de 30 de março de 2006, em especial o inciso I, do Terceiro Princípio, que garante a identificação pelo nome e sobrenome, devendo existir em todo documento de identificação do usuário um campo para se registrar o nome pelo qual prefere ser chamado, independentemente do registro civil, não podendo ser tratado por número, nome da doença, código, de modo genérico, desrespeitoso ou preconceituoso;

RESOLVE:

Artigo 1º Os órgãos e entidades da Administração Direta e Indireta, nos serviços de saúde, devem incluir e usar o nome social das pessoas travestis e transexuais em todos os registros relativos aos serviços públicos sob sua responsabilidade, como fichas de cadastro, formulários, prontuários e outros documentos congêneres.

§ 1º Entende-se por nome social aquele pelo qual travestis e transexuais se reconhecem, bem como são identificados por sua comunidade e em seu meio social.

§ 2° A anotação do nome social das pessoas travestis e transexuais deverá ser colocada por escrito, entre parênteses, antes do respectivo nome civil.

Artigo 2º As pessoas travestis e transexuais deverão manifestar, por escrito, seu interesse na inclusão do nome social, mediante o preenchimento e assinatura de requerimento próprio, conforme modelo constante do Anexo I, desta Resolução.

Parágrafo único No caso de pessoa analfabeta, o servidor ou empregado público que estiver realizando o atendimento certificará o fato, na presença de 02 (duas) testemunhas, mediante declaração cujo modelo consta do Anexo II, desta Resolução.

Artigo 3º É dever da Administração Pública Direta e Indireta, respeitar o nome social do(a) travesti ou transexual, sempre que houver, usando-o para se referir a essas pessoas, evitando no trato social, a utilização do respectivo nome civil.

§ 1º Havendo a necessidade de confecção de crachás, carteiras ou outro tipo de documento de identificação, deverá ser observado, mediante prévia solicitação por escrito do interessado, o nome social do travesti ou transexual e não o nome civil dessas pessoas.

§ 2° Nas manifestações que eventualmente se fizerem necessárias em documentos internos da Administração Direta ou Indireta, relativas às pessoas travestis e transexuais, deverá ser utilizado o termo “nome social”, vedado o uso de expressões pejorativas.

§ 3° Nos casos em que o interesse público exigir, inclusive para salvaguardar direitos de terceiros, deverá ser considerado o nome civil das pessoas travestis e transexuais.

Artigo 4º Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação.

Curitiba, 08 de março de 2010.

Gilberto Berguio Martin

Secretário de Estado da Saúde

Fonte: http://www.aen.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=54749&tit=Governo-aprova-uso-do-nome-social-de-travestis-nos-servicos-do-setor-da-Saude&ordem=955000

Curiosidade: Dieta gordurosa no início da gravidez aumenta chances da mulher gerar meninos


8 de março de 2010

Mulheres que tomam café da manhã e consomem alimentos calóricos no início da gravidez têm mais chances de gerar filhos do sexo masculino, afirmaram cientistas nesta segunda-feira. Uma dieta baseada em alimentos com menos gordura, disseram os cientistas, favorece o nascimento de meninas.

O estudo parece dar crédito ao ditado popular que afirma ser necessário comer bacon para ter filhos meninos.

A pesquisa foi realizada pela Universidade de Missouri, nos Estados Unidos, e liderada pela médica Cheryl Rosenfeld. "Em humanos e ratos a restrição alimentar e a dieta pobre em gordura no início da gravidez pode levar ao excesso de meninas. Trata-se, provavelmente, de uma perda seletiva de fetos do sexo masculino, o mais vulnerável", explicou a especialista.

Os pesquisadores analisaram genes de placenta de ratos submetidos a uma dieta calórica e genes de placenta de ratos submetidos a uma dieta pobre em gordura. A comparação mostrou que, além da mudança de sexo dos fetos, foi identificada maior sensibilidade relacionada à alimentação nos bebês femininos.

De acordo com a pesquisa, após 12 dias - metade do período de gestação dos camundongos -, cerca de 2000 genes sofreram alterações no sexo ou em outros elementos hereditários responsáveis pelas funções do rim e olfativas.

O estudo mostrou aos cientistas que a dieta materna tem muita influência na placenta das mulheres e que ela pode ser responsável por importantes alterações genéticas.

A pesquisa, parte de um estudo maior que vem sendo realizado por especialistas há 2 anos, foi publicada no The Proceedings of the National Academy of Sciences, nos Estados Unidos.

Nos últimos anos foi identificado um considerável declínio no nascimento de meninos em todo mundo. A pesquisa da médica Rosenfeld sugere que essa é uma consequência do comportamento das futuras mães que optam por consumir uma dieta leve durante a gravidez, evitando, inclusive, o consumo diário do café da manhã.

Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/saude/dieta-gordurosa-consumida-inicio-gravidez-aumenta-chances-mulher-gerar-meninos-538786.shtml

NAB: Grifo nosso.

Edir Macedo condena preconceito contra homossexuais em seu blog


08/03/2010 - 10h49

Por : Marcelo Cia

Bispo Edir Macedo, quem diria, defende direitos dos homossexuais em blog.

O fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, condenou de forma clara o preconceito contra homossexuais. Dirigindo-se aos membros de sua igreja evangélica, Edir diz que "um 'cristão' que pratique qualquer ato de repulsa contra outra pessoa é um paradoxo. Ele não apenas exclui seu próximo socialmente, mas tira dele a possibilidade de conhecer a compaixão Divina; o exclui de alcançar a salvação". Entre outras frases de efeito, Edir pede que cristãos deixem de condenar homossexuais. "Se formos condenar os homossexuais, então teremos de condenar a nós mesmos". O texto foi publicado originalmente no blog do Bispo, e replicado posteriormente no jornal da Igreja Universal.

Esperemos todos que o Senador Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo e principal articulador da bancada que barra os projetos de direitos civis de homossexuais, leie atentamente este texto e o coloque em prática.

Por outro lado, a atitude de Edir Macedo pode estabelecer uma trégua nesta guerra velada travada entre lideranças evangélicas e ONGS LGBT por conta do PLC 122 _que pretende condenar a discriminação a homossexuais como crime. O diálogo é preciso, afinal.

Abaixo você lê o texto do Bispo Edir Macedo na íntegra.

"Tenho lido todos os comentários deste blog. Os prós e os contras. Não me surpreendo quando pessoas alienadas à verdadeira fé cristã nos criticam. Se o fizeram com o Senhor Jesus, não o farão com Seus servos? Mas o que me deixa perplexo é o grau de insensatez entre aqueles que usam textos bíblicos para condenar os homossexuais. Será que a Bíblia coroa juízes? Será que por sermos discípulos de Jesus somos automaticamente elevados à condição de perfeitos a ponto de julgar e condenar os homossexuais, por exemplo?

Infelizmente, um dos fatores que mais tem impedido as pessoas de conhecer o Salvador e entender a mensagem do Evangelho é justamente a prepotência de muitos membros de igrejas, que se julgam crentes e seguidores da Palavra, e que só são capazes de estender a mão para apontar, criticar ou agredir o próximo, mas nunca como um sinal de amor, um gesto de respeito ao ser humano.

A pessoa preconceituosa tende a partir do princípio de que ela própria é o modelo ideal de ser humano, condenando à exclusão social todos os que aparentemente se diferem dela. Um “cristão” que pratique qualquer ato de repulsa contra outra pessoa é um paradoxo. Ele não apenas exclui seu próximo socialmente, mas tira dele a possibilidade de conhecer a compaixão Divina; o exclui de alcançar a salvação.

A única maneira de apresentarmos o amor de Deus, principalmente àqueles que são excluídos, é materializando este sentimento em gestos verdadeiros de atenção, respeito, solidariedade e inclusão. É só assim que estaremos praticando Sua ordem: Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai. Lucas 6.36

A mesma Bíblia que condena o homossexualismo, condena qualquer outro tipo de pecado, mas o Senhor Jesus acolhe a todos, sem distinção. Se formos condenar os homossexuais, então teremos de condenar a nós mesmos. Pois, quem está livre de pecados? Qual a diferença entre pecadinho ou pecadão? Deus não faz esta distinção.

A imagem que as pessoas vendem de si mesmas pode até convencer apenas outras pessoas sobre a santidade que se pretende aparentar, mas Deus enxerga o que vai no seu íntimo e isso não há o que disfarce.

Jamais vou defender o homossexualismo, mas sempre terei fé para ajudar tanto homossexuais quanto heterossexuais que estejam dispostos colocar suas dores, sofrimentos e fraquezas aos pés dAquele que quer salvá-los. Só não tenho fé para aturar hipócritas.

Para os crentes cascudos recomendo meditar:

Deus nos habilitou para sermos ministros de uma NOVA ALIANÇA, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. 2 Coríntios 3.6"

Fonte: http://mixbrasil.uol.com.br/lifestyle/religiao/edir-macedo-condena-preconceito-contra-homossexuais-em-seu-blog.html

NDAB: Apesar do Bispo se referir a homossexualidade, creio que o texto se encaixe em quaisquer outras situações onde o preconceito é fator preponderante.

domingo, 7 de março de 2010

Terças Trans do dia 09/03/2010.


Repassando:

"Olá Pessoal,

O Terças Trans dessa semana traz a primeira parte do especial: Patologizar ou Não, eis a questão!

O Objetivo das reuniões com esta temática é trazer ao público conteúdo para conhecimento e reflexão, para fortalecer as idéias sobre a discussão mundial que pretende tirar do DSM - Manual de diagnóstico e estatistica de doenças mentais - a transexualidade e outras transgeneridades, agora em 2012 e do CID - Código Internacional de Doenças, na sua nova versão, em 2014.

Manter as Transgeneridades como doença ou não?! Qual sua posição sobre o assunto?! Ainda não tem uma idéia formada?! Aproveite a oportunidade e Participe!!!

O tema desta terça será:

"O Surgimento da Patologização das Transgeneridades" com nosso convidado mega especial:
o Doutor em Ciências Sociais Jorge (Cabelo) Leite Jr., autor da tese: “Nossos Corpos Também Mudam”: Sexo, Gênero e a Invenção das Categorias “Travesti” e “Transexual” no Discurso Científico.

Dia 09/03/2010 das 19h às 21h - horário de sempre!!!
no Centro de Referência da Diversidade
Rua Major Sertório, 292-294 - Centro
Próximo ao Metrô República

Informações: 3151 5786

Coordenação: Alessandra Saraiva
Organização: Associação da Parada GLBT de SP e Centro de Referência da Diversidade.

Entre na Lista de discussões do Terças Trans:
http://br.groups.yahoo.com/group/tercas-trans/
"

sexta-feira, 5 de março de 2010

O que é sexo normal?


O manual da psiquiatria está sendo revisto. Entre os novos distúrbios deverá estar o impulso incontrolável de fazer sexo

Fernanda Colavitti e Rodrigo Turrer

A paulistana Priscila S., de 49 anos, considera sua vida absolutamente normal. Ela dá aulas de inglês, faz ginástica, gosta de ir ao teatro e a bares e restaurantes com o marido e os amigos. Priscila diz que seu casamento sempre foi ótimo e está ainda melhor desde 2000, depois que o casal descobriu o BDSM, sigla para a expressão Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo. Os adeptos da prática gostam de dominar ou ser submissos para atingir o prazer sexual, o que pode ou não envolver dor. Há os que, como Priscila, se excitam ao ser amarrados ou ficar pendurados nus por horas sendo observados. E aqueles que, como seu marido, sentem prazer em amarrar, dominar e, às vezes, dar mais do que uns tapinhas. Tudo é feito com o consentimento do outro. “É uma sensação indescritível de bem-estar”, afirma a professora. A prática que dá prazer a Priscila é classificada como distúrbio psiquiátrico pela Associação de Psiquiatria Americana (APA). A entidade elabora o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios Mentais (DSM), referência para médicos de todo o mundo.

Publicado em 1952 e atualizado pela quarta e última vez em 1994 (houve apenas uma revisão de texto em 2000), o documento de 943 páginas, que descreve cerca de 300 distúrbios psiquiátricos – entre eles os sexuais –, está sendo reformulado. O DSM-5 será publicado em 2013, mas a lista com as propostas dos comportamentos que passam a ser considerados anormais, os que deixam de ser e os que se mantêm foi divulgada em fevereiro. Aqueles que, como Priscila, não concordam com a permanência das práticas de BDSM no manual, como está sendo proposto, ou com qualquer outro item da lista, poderão se manifestar. O rascunho ficará disponível na internet (http://www.dsm5.org/) até abril.

Se depender do apoio de maridos pegos sobre a cerca, uma das propostas que deve fazer sucesso é transformar o impulso sexual excessivo – ou compulsão sexual – oficialmente em transtorno psiquiátrico. Estima-se que o problema – caracterizado pela obsessão incontrolável pelo ato sexual, capaz de prejudicar a capacidade de concentração e de dedicação às tarefas do dia a dia e comprometer o trabalho, a saúde e os relacionamentos da pessoa – afete cerca de 6% da população dos Estados Unidos. Mesmo assim, tal impulso incontrolável é visto com certa desconfiança, dada a quantidade de homens que já apelaram a ele para justificar suas aventuras sexuais fora do casamento. Depois de antecessores famosos como os atores Michael Douglas e David Duchovny, o compulsivo da vez é Tiger Woods, que deu uma entrevista coletiva se desculpando por seu problema incontrolável na semana passada. O campeão de golfe passou um tempo internado para tratar da suposta compulsão sexual depois que vieram à tona seu caso extraconjugal com uma garçonete de Nova York e aventuras com pelo menos uma dezena de outras mulheres.

Estima-se que a hipersexualidade prejudique a vida de 6% da população americana.

A vantagem de incluir no novo manual uma doença que já é tratada pela medicina, segundo o psiquiatra Luiz Alberto Hetem, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, é poder estudá-la mais detalhadamente e descobrir quais tratamentos e intervenções dão melhores resultados. No caso da hipersexualidade, isso também poderá aumentar a credibilidade dos pacientes. “Mas pode ter como efeito colateral mais justificativas médicas para casos de adultério”, diz. De acordo com Hetem, mais controversa do que a proposta de incluir a hipersexualidade no rol das doenças psiquiátricas é a que pode servir de argumento para livrar estupradores da cadeia. Ele diz que essa é a segunda vez que se considera incluir no DSM o Transtorno Obsessivo Coercivo, definido como “fantasias e desejos intensos com a possibilidade de forçar outra pessoa a fazer sexo”. A primeira foi em 1984, na terceira revisão do documento. A inclusão foi rejeitada, pois os responsáveis concluíram que seria impossível validar de maneira confiável o que diferenciava os estupradores doentes dos antissociais. A proposta atual continua com a mesma dificuldade. Mesmo os especialistas que não são contrários a ela, como o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, da Unifesp, acreditam que ela deve ser barrada novamente. “O conceito é bom, não me oponho. Nem toda pessoa que comete estupro tem personalidade amoral, a maior parte sofre com o que está fazendo”, afirma. “Mas é fato que qualquer estuprador pego vai alegar o transtorno. E o diagnóstico é feito com base no relato do paciente.”

Comportamentos sexuais só devem ser tratados quando prejudicam a vida de alguém, dizem psiquiatras.

Um dos grandes problemas de transformar comportamentos em distúrbios mentais é definir o limite entre a normalidade e o excêntrico, o inofensivo e o prejudicial. Em relação ao sexo, quais práticas são naturais e quais precisam de intervenção médica? Com base em que isso é definido? O conceito de saudável para a Organização Mundial da Saúde (OMS) define-se pelo “bem-estar biopsicossocial do ser humano”. Guiados por essa definição, os profissionais que estudam a mente humana dizem que comportamentos sexuais só precisam ser tratados quando afetam negativamente a vida do indivíduo ou dos que se relacionam com ele. “Se a pessoa não sofrer e não prejudicar terceiros, não é uma patologia”, diz Ronaldo Pamplona, psiquiatra e sexólogo, autor do livro Os 11 sexos, as múltiplas faces da sexualidade humana. O objetivo do DSM, portanto, é apenas servir como base para o diagnóstico e a identificação de um distúrbio.

“A partir do reconhecimento do problema é possível conduzir um tratamento não para curar, mas para reduzir o sofrimento da pessoa.” E apenas quando este for o desejo do indivíduo, como foi o do advogado paulistano que prefere ser identificado como Márcio (nome adotado para proteger sua identidade). Ele é crossdresser, alguém com compulsão de se vestir e se portar como mulher, e fez 15 anos de terapia. Aos 46, casado, com uma filha, profissional de sucesso, leva uma vida tranquila. Duas vezes por semana ele se transforma em Márcia, em um apartamento que mantém no centro da cidade. “Não me sinto doente. Sou diferente dos padrões morais e éticos da sociedade”, diz. “O fato de eu não poder pôr para fora meus sentimentos é que me causava problemas, mas a terapia me ajudou a me aceitar.” O comportamento do advogado está descrito na atual versão do DSM, no capítulo das “parafilias”, definidas como preferências ou obsessões por práticas sexuais socialmente não aceitas. A proposta é que continue no DSM-5.

Márcio tem duas visões distintas sobre a lista de parafilias do manual psiquiátrico, que também inclui – e deverá manter – o voyeurismo (obtenção de prazer sexual através da observação de outras pessoas) e o fetichismo (uso compulsivo de objetos ou partes do corpo como estímulo à satisfação sexual.). Como advogado, é contra a retirada de algumas delas da classificação. Na Justiça, é preciso comprovar a “doença” para ter direito a atendimento médico público – inclusive para a operação de mudança de sexo em transgêneros. Como crossdresser, não acredita na necessidade de estar incluído numa lista de distúrbios. “Os comportamentos desviantes têm de ser analisados caso a caso, não precisam estar numa lista”, diz.

A lista é necessária, afirmam os médicos, porque ela vai orientar os diagnósticos clínicos e a pesquisa científica. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, a classificação ajuda a normatizar. “Um psiquiatra recém-formado se baseia nela até aprender todas as características que fazem parte de determinado quadro clínico”, diz. Daí a necessidade das revisões periódicas. Um psiquiatra que estudou há 30 anos aprendeu que a pedofilia era um distúrbio exclusivamente masculino. Não é verdade, hoje se sabe. Até 1970, a homossexualidade era tratada como doença e fazia parte do DSM. Talvez não tivesse permanecido ali por tanto tempo se os homossexuais tivessem tido a oportunidade de se manifestar, como agora podem fazer os sadomasoquistas, os crossdressers e todos os que se identificarem na lista que está sendo proposta e não concordarem com ela. “Ainda que a decisão final caiba ao grupo de pesquisadores envolvidos na revisão, tenho certeza de que a opinião pública vai pesar”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Hetem.