quinta-feira, 8 de abril de 2010

Congresso Internacional sobre Identidade de Gênero e Direitos Humanos - Barcelona 4 a 6 de junho de 2010


Introdução

A transexualidade se faz presente há muito tempo, em todas as sociedades humanas conhecidas, independentemente do progresso alcançado pela medicina moderna, que possibilita hoje, uma melhor adaptação física ao gênero que o indivíduo sente pertencer. A compreensão que essas diferentes sociedades têm quanto a realidade destes seres humanos, no entanto, varia amplamente tanto no tempo, como em diferentes partes do mundo. Algumas sociedades aceitaram, em diferentes níveis, esta realidade, criando instrumentos sociais e leis para melhorar a integração social dos transexuais, com todos os seus direitos civis assegurados. Outras, ao contrário, tem expressado graus variados de rejeição e / ou perseguição e supressão da transexualidade, promovendo políticas violentas que resultam em sérias violações dos direitos humanos.

Hoje em dia, enquanto alguns países reconhecem a transexualidade como uma condição do ser humano, e portanto tem desenvolvido ferramentas para a proteção e reconhecimento dos seus direitos civis (o direito ao matrimônio, a receber assistência médica durante a transição, o reconhecimento civil da mudança de identidade, ao exercício dos direitos parentais, etc...), outros países impõem políticas repressivas que incluem aprisionamento, punição corporal ou até mesmo pena de morte. Outras sociedades, por sua vez, praticam vários atos considerados menos extremos como violência institucional (assédio por parte da polícia e semelhantes), ou tolerância a certos tipos de violências praticadas contra transexuais (falta de proteção legal ou policial contra assassinato, linchamento ou delitos menores), que também são contrárias a Carta Fundamental dos Direitos Humanos da ONU.

Finalmente, até mesmo nas sociedades mais avançadas com relação a aceitação e reconhecimento da transexualidade, esse grupo de pessoas sofre com altos graus de rejeição social, dificuldade de inserção no mercado de trabalho, ao acesso a moradia, saúde, ao exercício familiar, e aos direitos sexuais e reprodutivos, o que faz com que este grupo se encontre em um alto grau de desvantagem social.

Os transexuais, estatisticamente falando, são um dos grupos mais afetados pela marginalidade (prostituição, drogadição, etc...) e pela dificuldade em encontrar empregos, além de ser, provavelmente, o grupo com as mais altas taxas de suicídio bem como de mortalidade pela falta de assistência médica adequada durante a transição. Os progressos específicos alcançados em países como Espanha, Uruguai, Grã - Bretanha, Holanda, etc. não escondem, uma vez que nos movimentamos em um mundo globalizado, o alcance limitado dessas ações, normalmente não reconhecidas fora das fronteiras dos países envolvidos.

Dentro deste contexto, a Human Rights Watch, junto com várias administrações públicas estrangeiras, e espanhola, decidiu organizar o Congresso Internacional sobre Identidade de Gênero e Direitos Humanos, que conta ainda com uma ampla coalisão de grupos e associações que lutam pelo reconhecimento dos direitos dos transexuais, além do movimento espanhol, e internacional, pelos direitos dos LGBT. A idéia do congresso em uma conferência mundial feita por transexuais, com transexuais e para transexuais, tem como objetivo final unir e dar voz a um grupo representado de forma esparsa na sociedade, e de ouvir pela primeira vez, com a participação de membros de diversos países e de diferentes culturas, sobre seus problemas, demandas e possíveis soluções. E finalmente, a elaboração de um documento básico a ser endereçado aos Estados, organizações internacionais, associações e Ongs, que venha a servir como diretriz para implementação de uma política legislativa, e de proteção dos direitos humanos, direcionada aos indivíduos transexuais.

Site do Congresso: http://www.congenid.org/

Fonte: Repassado por email pela colaboradora Glória.

Tradução: "Homer", da versão em inglês disponível no site do congresso.

Piauí lança 43ª edição


São Paulo, 8/4/2010

A edição número 43 da Revista piauí, que nesta semana chegou às bancas de todo o Brasil, conta com divulgação por meio de campanha publicitária criada pela agência carioca Loja Comunicação.

A ação conta com anúncios para jornais e revistas, spot para rádio e filme para veiculação em cinemas. Paralelamente à divulgação de sua edição 43, a piauí veicula uma campanha institucional, com comercial na TV Globo, exclusivamente no Rio de Janeiro.

Entre as reportagens da piauí de abril destacam-se:

Cartas – O ministro Nelson Jobim comenta o portfólio da Military Fashion Week e mostra que entende mesmo do assunto.

Diamantes negros – Reportagem de Daniela Pinheiro mostra a África do Sul vinte anos depois do fim do apartheid e a nova elite negra ligada ao governo que tem mudado a cara do país.

Como mudar de sexo – A reportagem de Clara Becker mostra os detalhes dessas operações e especialista em cirurgias de mudança de sexo e seus pacientes num hospital público do Rio de Janeiro.

Craque não precisa jogar – Mais um tipo brasileiro que está muito em voga: o craque de futebol que brilha sem suar a camisa. Texto de Marcos Caetano.

Guerra civil em Palermo – A fotógrafa italiana que registrou os crimes da Máfia Siciliana. Texto e fotos de Letizia Battaglia.

A igreja de Warren Buffett – Reportagem de Mattathias Schwartz sobre o encontro anual da sociedade do bilionário americano, 35 mil fiéis celebram a estrela-guia das finanças.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Trans podem usar nome social na escola em 10 Estados brasileiros


05/04/2010 - 12h19

Por : Hélio Filho

Segundo a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), já chega a 10 o número de Estados brasileiros que aceitam o uso do nome social para alunos e alunas transexuais e travestis. O resultado faz parte de um esforço conjunto entre a ABGLT e a Articulação Nacional de Travestis (Antra) lançado em 29 de janeiro de 2009.

Aceitam o nome social de alunos maiores de 18 anos em seus documentos escolares da rede pública de ensino os Estados de Goiás, Santa Catarina, Paraná, Piauí, Paraíba, Pará, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Alagoas. Existem também decisões pontuais como a Secretaria de Educação de Belo Horizonte, em Minas Gerais.

Fonte: http://mixbrasil.uol.com.br/pride/seus-direitos/trans-podem-usar-nome-social-na-escola-em-10-estados-brasileiros.html

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Porque ter opinião também é importante.


Desfavor do dia 3.3.10 : Flertando com o desastre: Transexual.

Transexual, em um resumo bem simplificado, é aquela pessoa que possuí uma identidade de gênero diferente daquela que lhe foi atribuída no seu nascimento, apresentando sensação de desconforto, impropriedade ou inadequação em relação a seu sexo anatômico. É aquele discurso de ser “uma mulher presa no corpo de um homem” (ou vice versa). Não confundir com os homossexuais, que estão muito contentes com seus corpos, apenas sentem atração por pessoas do mesmo sexo (mil perdões pelas simplificações banalizantes, é que tenho um limite pequeno de páginas para escrever).

Transexualidade ainda é classificado como um “transtorno mental”, porém alguns países como a França já não encaram mais a transexualidade como “doença”, o que a meu ver, é um enorme avanço. Quem foi que disse que uma pessoa de fato não pode ter nascido com o sexo mental diferente do físico? Só porque não aconteceu comigo ou porque eu não entendo, não quer dizer que não exista ou que seja doença. Transexuais existem. Não adianta ficar discutindo aqui o que a gente acha ou deixa de achar da pessoa ser transexual. É uma realidade e é preciso lidar com ela. O foco da discussão não é o que nós pensamos dos transexuais e sim como lidar com a questão na prática.

E não é uma “novidade” dessa vida moderna, de uma geração “perdida” e “sem valores”. Eles existem desde sempre. Um imperador romano (salvo engano, seu nome era Heliogábalo) casou com um escravo e ofereceu metade do seu império para o médico que conseguisse modificar seu sexo cirurgicamente. Há fortes evidências de que o Papa João VIII era na verdade uma mulher travestida de homem. O rei Henrique III, da França, se vestia que nem mulher. Como este, tenho dezenas de exemplos para dar. Então, para aqueles que acreditam que se trata de uma “desgraça dessa nova geração”, pensem duas vezes.

Até mesmo em tribos isoladas da vida “civilizada” há relatos de transexualidade e até mesmo rituais de mudança de sexo. É inerente a alguns seres humanos, em qualquer época, em qualquer contexto social e antropológico. Só porque você não compreende, não quer dizer que não aconteça e que não seja real. Não é loucura da cabeça das pessoas, não é sintoma de doença, não é trauma de infância. É realidade. Pessoas nascem com uma personalidade de um sexo e corpo de outro.

Quando devidamente comprovada a condição de transexual, e por devidamente comprovada, estamos falando de um laudo médico, a lei brasileira autoriza que seja realizada uma cirurgia de Reatribuição Sexual (ou Redesignação Sexual). Entretanto, esta cirurgia só está disponível de forma satisfatória para os homens (sim, isso mesmo, corta fora). Não gosto do termo cirurgia de “mudança de sexo”, pois para os transexuais, eles não estão mudando de sexo, estão apenas corrigindo seus corpos, que não correspondem a suas mentes, suas almas ou qualquer outro nome que se queira dar. Para as mulheres, salvo engano, ainda não é possível realizar cirurgicamente a redesignação sexual.

Eu costumo brincar dizendo que os avanços da medicina são ótimos para a minha vida, mas para a minha profissão são um caos. Porque avanços médicos fodem com o direito. Criam uma lambança nas normas pensadas para situações onde estes avanços não existiam. Fico feliz que exista a cirurgia de redesignação sexual, mas ela criou uma série de dificuldades formais que passo a expor, e peço a opinião de vocês. Não vou entrar em termos técnicos nem aprofundar o assunto, porque isso aqui não é um blog jurídico. Vocês sabem o esquema do Desfavor: conversa como se fosse em uma mesa de bar.

O primeiro problema diz respeito à documentação da pessoa que fez a cirurgia de redesignação sexual. Um transexual chamado Wanderlei que faz a cirurgia e “muda” de sexo, evidentemente não pode continuar com um documento de identidade onde se lê o nome “Wanderlei”, porque puta merda, isso seria vexatório. Imagine o constrangimento que essa pessoa passaria. Imagine uma bela mulher de cabelos longos e seios fartos esperando em uma fila de um repartição pública qualquer, quando um funcionário chama “WANDERLEI DA SILVA!” – e ela tem que se levantar sob os olhares curiosos dos demais presentes. Não pode. Desumano, a meu ver. Acho que deve ser permitida a troca de nome nos documentos. E vocês?

Também me parece extremamente preconceituoso mudar o nome de Wanderlei para Wanderléia e dizer no documento que se trata de uma pessoa do sexo masculino. Daí sempre vem um espírito sem luz dizer que transexual não é mulher, porque não tem útero nem ovário. Ora, se for assim, uma mulher que fez uma histerectomia total deixa de ser mulher? Mudar apenas o nome e deixar o sexo como “masculino” fere igualmente a dignidade da pessoa, concordam?

Tem aqueles que dizem que pode mudar nome, pode constar como “sexo feminino” mas deve constar algum registro na documentação de Wanderlei dizendo que um dia ele foi homem. Porra, que constrangimento! Porque a pessoa se submete a uma cirurgia complicadíssima para se sentir mais adequada, se vai continuar marcada em seu documento de identidade? Acho um absurdo sujeitar uma pessoa a isso. Mas tem quem defenda que isso preservaria o resto da sociedade, numa vibe meio “não levar gato por lebre”. Geralmente são os homens que usam este argumento. Eles tem medo de um dia sair com a bela Wanderléia e depois de um tempo de namoro descobrir que ela já foi Wanderlei. Gente, vamos abrir a cabecinha? Nos apaixonamos por SERES HUMANOS. Faz tanta diferença se Wanderléia já foi Wanderlei?

Mais uma polêmica: o Estado deve disponibilizar esta cirurgia de forma gratuita? Na minha opinião, nem tem o que pensar. Se o Estado gasta rios de dinheiro tratando imbecilóides que VOLUNTARIAMENTE fumaram a vida toda detonando seus pulmões, POR PURA IMBECILIDADE E FALTA DE FORÇA DE VONTADE, porque não tratar alguém que não concorreu em nada para seu problema? O Estado gasta fortunas com gordinhos que enchem o cu de doce e acabam com artérias entupidas e diabéticos, por pura preguiça, mas não pode amenizar o sofrimento de alguém que não tem culpa de seu sofrimento? O Estado faz redução de estômago em pessoas que estão do tamanho do Balão Mágico porque não tem a força de vontade de parar de comer feito porcos e não quer gastar dinheiro com pessoas que estão batalhando para se adequarem à sociedade?

E tem mais um questionamento. Como eu disse, ainda não se inventou uma cirurgia de reatribuição sexual efetiva para mulheres que se sentem homens. Então, todas as mulheres transexuais estão condenadas a ter em sua identidade o nome de mulher, mesmo se vestindo e se sentindo como um homem? Mesmo fazendo tratamentos hormonais que as deixa com aparência de homem? Seria a cirurgia condição absoluta para a troca de nome na certidão de nascimento e na identidade? Isso criaria uma injustiça, porque todos os homens transexuais poderiam ter a chance de mudar de nome e sexo e as mulheres não, por culpa da medicina que não é capaz de lhes dar esta cirurgia.

Ao mesmo tempo, se a gente admitir a possibilidade de mudança de nome e sexo da pessoa sem a cirurgia, poderíamos criar a seguinte situação: Wanderléia, certidão de nascimento e carteira de identidade constando sexo feminino, tem pênis. Estranho. Ser injusto ou ser incoerente? Escolha difícil.

E vem mais um problema: Wanderlei tentou abafar sua condição de transexual por medo da reprovação social. Casou e teve filhos. Um dia, não agüentou mais sufocar sua verdadeira identidade e decidiu fazer a cirurgia de redesignação sexual. Depois de operado, mudou seus documentos. Como fica a certidão de nascimento do filho de Wanderléia? Seria correto mudar o nome do pai para um nome feminino? Isso é nocivo para a criança? Deixa como Wanderlei na documentação da criança e como Wanderléia na documentação do transexual? Não pode. Ou muda tudo ou não muda nada. Que porra é essa de uma pessoa ser mulher em um documento e homem no outro? O que fazer?

O Judiciária brasileiro vem aceitando adoção de crianças por casais em união homoafetiva. Então, se um casal de homossexuais pode adotar uma criança, constando na documentação da criança dois pais ou duas mães, porque não mudar o nome se o pai se mostrar transexual? Tem quem diga que isso iria expor a criança. Olha, quando seu pai usa salto 12, coloca silicone no peito, usa batom e corta fora o bilau, não tem muito como esconder essa transformação da criança, portanto, não sei bem se isso é algo do qual a criança possa ser “poupada”. É uma realidade, quanto mais naturalmente ela for aceita, melhor.

A lei brasileira ainda não tem respostas seguras para todas essas questões que eu coloquei. Os entendimentos variam. O certo é que se busca sempre preservar a dignidade da pessoa humana.

Eu sei que muitos de vocês estão torcendo o nariz para mim agora. Mas vamos ter um pingo de humanidade? Nada como se colocar no lugar dos outros para emitir uma opinião. Já pensou como deve ser DIFÍCIL PRA CARALHO você se sentir de um sexo e seu corpo ser de outro? Já pensou? Se muitos acham um tormento conviver com detalhes do corpo com os quais não se sentem bem, como um nariz feio ou seis pequenos, imagina a merda que é você não gostar do seu corpo como gênero?

Porque se uma patricinha não gosta do seu nariz de batatinha ela pode ir ao cirurgião corrigir seu nariz de porquinha (a ainda ostentar isso), enquanto que uma pessoa que sofre uma sensação de inadequação mil vezes maior não pode ter um conforto para amenizar seu sofrimento? E muitas vezes nem mesmo a cirurgia ameniza o sofrimento, é necessário mais para uma vida minimamente digna: cirurgia + mudança de toda a documentação, sem que conste em nenhum lugar nenhum registro de que um dia a pessoa foi do sexo oposto.

Daí vem sempre alguém dizer que não podemos brincar de Deus e que se começarmos a mudar o sexo assim vamos acabar criando situações aberrantes. Primeiro que a gente brinca de Deus o tempo todo. Se a medicina não brincasse de Deus, eu mesma não estava aqui, teria morrido aos 25 anos. Mantemos vivas pessoas que, pelos ditames da mãe natureza, deveriam estar mortas. Modificamos corpos até que percam sua aparência humana (Michael Jackson? Oi?). Escolhemos características de bebês geneticamente, criando um supermercado de gente... etc, etc. Mas, na hora de conferir condições dignas a um ser humano em sofrimento por não se sentir adequado a seu gênero, as pessoas pedem moderação? Não, por favor não. Não posso com esse discurso.

“Mas Sally você gostaria que mudassem o sexo ou o nome do seu pai na sua certidão de nascimento?”. Se meu pai se vestisse como uma mulher, falasse como uma mulher, e se sentisse como uma mulher, SIM, POR FAVOR! Ou por acaso eu quero estar com meu pai, uma loira gostosa, no aeroporto na fila do embarque e ouvir alguém chamando ele de Wanderlei?

Já vi gente propondo criar um terceiro gênero de banheiro público além do Feminino e do Masculino: Transexual. Gente, se o homem CORTOU FORA O PRÓPRIO PAU, vocês acham mesmo que ele vai ficar manjando mulher no banheiro feminino? Tem dó de mim! A coisa tem que caminhar para a inclusão, para a compreensão e para a aceitação, e não reforçar a discriminação com um banheiro que mostra à sociedade que a pessoa é transexual!

Para aqueles que estão se contorcendo na cadeira e pensando que isso não é uma coisa “natural”, lamento. A cirurgia de redesignação sexual é uma realidade e vem sendo realizada no Brasil. Aceitem. Aceitem a escolha alheia. Pensem, sem dar nomes, classificar como “doença”, “aberração” ou qualquer outra definição preconceituosa. Apenas PENSEM NA SITUAÇÃO: você, se sentindo de um sexo, em um corpo de outro sexo. Pensem como deve ser difícil viver assim. O peso que essas pessoas carregam é por si só suficiente, não precisam de julgamentos, preconceitos e discriminação. E muitas vezes, mesmo com este complicador enorme, elas são melhores pessoas do que nós, aqueles ditos como “socialmente adequados”.

Façam um exercício de imaginação comigo. Supondo que todos pudessem modificar seus sexos e documentos de identidade. Supondo que você descobrisse hoje que a pessoa que você AMA já foi do sexo oposto. Você largaria essa pessoa? Se alguém respondeu “sim”, vou ficar muito desapontada.

O ser humano é complexo, é diverso, é inclassificável nesses rótulos fixos ultrapassados. Somos todos SERES HUMANOS, foda-se o que cada um faz com seu corpo ou com a sua sexualidade. Muito fácil julgar a sexualidade DOS OUTROS, quando esta se torna pública e a nossa continua privada. Se a sexualidade de TODOS fosse pública, garanto que descobriríamos que os heterossexuais também fazem coisas que podem ser objeto de preconceito e discriminação. Se a sua sexualidade, suas preferências, suas práticas, se tornassem públicas... será que parte da sociedade não te discriminaria? Pense nisso. E pare de jogar pedras naquelas pessoas cuja sexualidade se tornou pública por total falta de opção.

Para dizer que nunca mais volta no Desfavor e depois voltar e ficar metendo o malho na gente, para dizer que transexual é quando se trata de uma pessoa da sua família, porque se for o vizinho é um viadinho e para perguntar ao Somir se ele anda feliz com os temas que eu venho escolhendo: sally@desfavor.com


NDAB: Por favor, não se atenham a possíveis trocas de "conceitos", p.ex. homens transexuais como mtfs e vice versa, e sim ao todo do texto. Ninguém é perfeito (ufa!), nem sabe tudo (ainda bem), mas opiniões que validem, acima de tudo, o direito a ser quem se é, sempre terão seu lugar. Algumas opiniões expressadas no texto acima, não são necessariamente as mesmas do autor deste blog.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Histórias de Vida X - Sim, tudo é possível - Parte 2, por Ultraman.


Nessa época me revoltei com Deus por tudo. E, na prática, tive que entrar na justiça contra a agência onde trabalhava antes, para ver se pelo menos recebia os salários atrasados e os direitos trabalhistas. Em 3 meses consegui encerrar esse processo. Era uma grana até que boa, já que tinha um bom salário antes de tudo ferrar. No acordo ficou combinado que receberia em 12 vezes.

Foi então que decidimos voltar para o interior - onde aluguel e custo de vida eram menores - para ver o que fazer da vida. Minha idéia era ser freelancer para as agências de São Paulo, mas morar no interior. Não achava que isso daria certo, mas resolvemos tentar já que tinha um ano de renda garantida com os acertos ganhos na justiça.

Alugamos uma casa no interior e para trabalhar assim precisava de um computador com internet. Comprei um. Por uma benção dos céus, um milagre ou sei lá o que, entrei em contato com agências de São Paulo e comecei a pegar muitos textos para fazer como freelancer. Fazia em casa, mandava por e-mail, no final do mês mandava a fatura, as agências pagavam e boa. Tudo certo, tudo acomodado como antes.

É..tudo certo até que um dia bateu uma curiosidade danada de entrar num chat do Uol...nunca tinha mexido nisso. Pra falar a verdade tinha até um pouco de medo. Instintivamente coloquei um nome masculino e as mulheres começaram a puxar conversa. Aquilo foi me encantando, pois ali, naquele universo virtual eu finalmente podia ser um homem. Esse exercício de masculinidade estava me fazendo bem, mas ao mesmo tempo mexendo com minha cabeça. Um terremoto em minha vidinha acomodada e sem paixão. Até que uma noite. Uma noite de dezembro do ano 2000, encontrei na internet uma mulher que me virou pelo avesso de maneira avassaladora.

Ela vivendo um casamento ruído e eu apavorado e alucinado de paixão. Ela achando que estava falando com um homem. E eu me sentindo mais homem do que nunca. Noites e noites de conversas, confidências, entrega...e do mesmo jeito que acontecia na minha infância, na maior parte do tempo nem lembrava de minha condição. Mas quando lembrava sabia que, mais dia menos dia, perderia tudo aquilo. Só que as coisas foram fugindo do controle e, em meio aquele romance virtual, ela teve coragem de se separar do marido.

Eu estava enlouquecido de paixão e de vontade de viver aquele amor de verdade. Um amor de homem e mulher. Comecei a questionar minha condição e fui pesquisar na internet. Comecei a encontrar relatos de casos iguais ao meu. E ver que existia sim uma saída. Pesquisei, estudei, ponderei e, finalmente, tomei coragem pra começar a terapia hormonal. Isso foi em 2001.

Vivi minha transformação. Cada conquista era um desafio aparentemente insuperável. Durante um tempo tive que ser 2 pessoas para poder viver e dar seguimento à transição. Até que não podia mais aparecer nas agências onde prestava serviço por causa da mudança em minha aparência e, mais uma vez, fiquei sem dinheiro. Enfrentando uma situação desesperadora.

No meio disso tudo consegui me operar. Consultei-me com a Dra. Tereza Vieira e a Dra. Dorina Epps, e ainda fui a luta para ter de volta o amor da minha vida (imaginem a barra de ter que contar tudo, depois de mais de 1 ano num relacionamento virtual...).

Foi difícil, foi dolorido, foi sofrido, foi desesperador.

Mas em 2004 voltei para São Paulo e, já como uma outra pessoa, comecei do zero procurando emprego em outras agências. Procurei e consegui! Conquistei minha mulher novamente e hoje, depois de 5 anos da minha volta para São Paulo, sou diretor de uma grande empresa, casado, feliz e vivendo uma vida apaixonada.

Ainda tenho muita luta pela frente. Mas quando olho para trás quase não consigo acreditar. Aquele sonho impossível da infância, aquele futuro improvável chegou. Aconteceu. Hoje eu sou um homem de verdade. E se eu tivesse que resumir em uma palavra uma mensagem para você que está aí agora, sem saber para onde ir ou o que fazer, a palavra seria ACREDITE.

Porque tudo é possível, sim!

terça-feira, 30 de março de 2010

Histórias de Vida X - Sim, tudo é possível por Ultraman


Até os 35 anos minha vida foi um quebra cabeças de peças desconexas. E depois disso, a maneira com que essas peças se encaixaram...juro que se não tivesse acontecido comigo, se alguém me contasse, eu não acreditaria.

As lembranças dessa história vêm de muito tempo, pois desde os 2 anos tudo o que acontecia comigo e à minha volta está guardado de maneira bem clara e lógica na memória.

A infância toda, com raras exceções, eu praticamente não me dava conta de que não era menino. Sentia-me menino, me vestia como menino, brincava feito menino e, por minha sorte, podia compartilhar tudo isso com minha melhor amiga, vizinha de rua, que era igual a mim. Maria Alice, o nome dela. Lice, como era costume abreviar os nomes no interior de São Paulo.

Graças a Deus, nunca houve qualquer tipo de repressão por parte das famílias. Nem da minha e nem da Lice.

Podíamos cortar o cabelo curto, podíamos usar shorts e camisetas, jogar bola com os meninos, subir em árvore, brincar de revólver. Realmente, nem precisava parar para pensar que não éramos iguais aos outros meninos. Mas às vezes parávamos. E nessas vezes lembro que em nossas conversas de criança, cheias de fantasia, falávamos de um futuro tipo Jetsons, onde entraríamos numa cápsula e poderíamos "virar homens".

Falava isso também com minha mãe que só ria e afirmava que isso era impossível.

Uma infância boa, que começou a desmoronar, quando apareceram os seios. Os da Lice vieram antes. Nunca nem comentamos entre nós esse fato. Nos limitávamos a tentar esconder ao máximo aquilo, usando camisetas e mais camisetas por baixo da blusa. No meio disso tudo veio o fim do primário e as cobranças na escola: "porque vocês não usam sutiã????" Resistimos bravamente até que as cobranças foram ficando insuportáveis. Primeiro foi a Lice e depois eu a experimentar a sensação humilhante de colocar um sutiã.

Pior que essa sensação, só a menstruação. Chorei por 5 dias seguidos e, pela primeira vez na vida, senti uma vontade profunda e legítima de morrer. Mas as coisas se acomodam e, no final das contas, ainda passava os meus dias quase que sem lembrar que não era homem. A realidade só me atingia como um soco no estômago, nas vezes em que ouvia alguém comentando "lá vai a mulher-macho". Cada insinuação, cada ocorrência era humilhante. Nunca me senti homossexual, mas como explicar isso se nem eu mesmo entendia.

Na juventude e na hora de começar a trabalhar decidi que mudararia aquela situação, que ninguém mais me chamaria de sapatão.

Por algum tempo e em vários momentos da minha vida, me forcei a vestir roupa de mulher e tentar me comportar como mulher. Foi assim quando entrei na faculdade, foi assim quando fui arrumar meu primeiro emprego. Mas todas às vezes a tentativa era em vão. Eu simplesmente não conseguia me manter por muito tempo naquelas roupas e nem naquela atitude. Sem perceber, eu já era a mulher-macho novamente. Sabia que todo mundo notava, mas tinha pânico de pensar nisso. Tinha pânico de arrastar esse rótulo vida afora.

Fui levando assim, até me envolver com uma mulher que se apaixonou por mim, mas logo passou a me evitar. A cabeça dela deu um nó. Primeiro porque não entendia o fato de gostar de mim, já que ela não era homossexual. Depois foi porque esse nosso romance virou um escândalo na cidade pequena do interior, num tempo em que ser gay era a vergonha máxima para uma pessoa e sua família.

Nos distanciamos até que, 4 anos mais tarde, voltamos a nos encontrar já morando em São Paulo. Nessa época eu já estava formado em comunicação e estava trabalhando em uma grande agência de propaganda de Sampa, como redator júnior.

Para não entrar em detalhes que tornariam esse depoimento muito longo, vou contar em poucas linhas, que vivi 15 anos com essa mulher. Mas um relacionamento que não nos satisfazia. Ela porque não aceitava estar casada com um sapatão e não permitia que tivéssemos uma vida sexual. Eu porque queria ter uma vida sexual.

Mas enfim, a situação acabou tornado-se cômoda para as duas partes e fomos tocando assim. Achei que minha vida tinha se resumido a isso: engordar, trabalhar e viver com uma amiga. Achei que era o melhor que podia acontecer para alguém nas minhas condições e fui remando.

Remei, remei, até que minha vida profissional (até então estável) começou a afundar. A agência onde trabalhava começou a entrar em crise e foi minguando, minguando, até não ter mais como pagar os funcionários. Agarrei - me naquele barco furado, pois morria de medo de ter que enfrentar o mercado de trabalho. Sabia que minha aparência era um obstáculo.

O resumo da ópera é que a agência quebrou e estávamos sem nenhum tostão. Comecei a fazer freelancer enquanto procurava outro trabalho. Não encontrava emprego, não tinha como pagar aluguel e tive que entregar meu carro para o banco... não tinha nem como pagar o supermercado. Minha mulher, ou amiga, também estava sem emprego.

Continua...

Filho de Cher quer mudar sexo nos documentos



Chaz Bono aguarda decisão da Justiça da Califórnia nas próximas semanas

Por Redação
Publicado em 29/03/2010 às 18:01

Chastity agora deve ser chamado de Chaz

Chaz Bono, filho da cantora Cher, entrou com um pedido na Justiça para mudar seu nome e sexo nos documentos.

Chaz nasceu Chastity e, no ano passado, submeteu-se a uma cirurgia de redesignação sexual. O filho de Cher aguarda que a Suprema Corte da Califórnia atenda seu caso nas próximas semanas.

Em dezembro, Chaz foi a um programa de televisão falar sobre a sua transexualidade e declarou à época que “o gênero está entre as orelhas, e não entre as pernas”.

Fonte: http://dykerama.uol.com.br/src/?mI=5&cID=23&iID=3022&nome=Filho_de_Cher_quer_mudar_sexo_nos_documentos